Quem Ousa, Vence!

"Como se se pudesse matar o tempo sem lesar a eternidade" Henry Thoreau (1817 - 1862) Ano XIII

17.2.19

Quantum Satis: Vícios privados, públicas virtudes (106)


La Madeleine à la veilleuse (c. 1640 - 1645)
Georges de La Tour (1593 - 1652)
Louvre

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16.2.19

Momentum: "Carpe Diem" (1 336)


Depois do Regulamento Geral de Protecção de Dados (RGPD), ou General Data Protection Regulation (GDPR), o governo português pretendia que as facturas que, em 2020, vão ser emitidas com um código de barras digital bidimensional em formato quadrado (QR), através do qual os contribuintes podem, por sua iniciativa, comunicar ao fisco as despesas de uma factura, ainda que não tenham pedido para colocar o NIF, para criar incerteza nos vendedores — ou seja, uma emboscada aos comerciantes — queriam que essas facturas descriminassem o que a pessoa comprou ou consumiu numa loja. Obviamente esta última bateu na trave. É pena que tenha sido com pouco estrondo. Entretanto, já em Julho vão ser comunicados os saldos bancários superiores a cinquenta mil euros. No limite o RGPD regulará os Fullen e Sequências.

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10.2.19

Cinefilia: "Em Transe" (2013)

[ 89 ] Danny Boyle fez mais um excelente filme, com um plot genial à custa de vários twists. Um leiloeiro de pinturas famosas, Simon (James MacAvoy) decide roubar a obra de Francisco Goya Bruxas no Ar (1798) — na realidade patente no Museu do Prado — para pagar as dívidas de jogo ao chefe de um gangue Franck (Vincent Cassel). Só que as coisas não correm como previsto e durante o assalto ao levar uma forte pancada na cabeça perde a memória. Para recuperar o paradeiro da obra roubada, que, neste caso, acabou na verdade por ser furtada, Franck recorre à hipnoterapeuta Elizabeth Lamb (Rosario Dawson) para previamente recuperar a memória de Simon. Depois de algumas cenas eróticas, violência explícita, o enredo desvenda que o apelido da hipnoterapeuta é todo ele um programa. E aquilo que todos pensavam tratar-se de uma amnésia não passou de uma manipulação psíquica para alcançar um determinado propósito. Em Transe (2013) deve ter sido das melhores coisas que se fizeram quer nesse ano, quer nos últimos anos, quer no argumento, quer na cinematografia. E deve ter passado despercebido a muito boa gente na voragem da actualidade.

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5.2.19

Momentum: "Carpe Diem" (1 335)


[ 13.° Aniversário ]

Sempre que o Cristiano Ronaldo faz anos, o Quem Ousa Vence ( QOV ) também. Foi uma coincidência, se um tem o talento o outro tem a resistência. Hoje, o primeiro faz 34 anos e o segundo 13 anos. Parece pouco? Numa altura em que até a porcaria do Facebook está a perder notoriedade para merdas como o Instagram, Whatsapp, Tinder e assim sucessivamente, dá um gozo tremendo ter um cantinho muito próprio que se borrifa para a adesão que tem. É um pouco como aquele dilema antigo do apoio às artes criativas, conceptuais, ready-made, que não têm grande audiência. Se não tem audiência não se conseguem auto-sustentar e deverão ser subsidiadas? Por outro lado, se o Urinol do iconoclasta Marcel Duchamp e a Merda de Artista de Piero Manzoni foram um sucesso... Mas este é um blogue hidden in plain sight, não é à toa que, de vez em quando, surgem convites para escrever noutros blogues colectivos ou o testemunho de alguém que por aqui aparece. Com mais ou menos inspiração, com mais ou menos frequência, com mais ou menos proficuidade, vai continuar a ser actualizado. Não tem likes. Não precisa de feed-back. É em proveito próprio. Um tremendo gozo.

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27.1.19

Bibliofilia: "Dez Milhões e Um" (2018)


[ 142 ] Robert Sherman, Dez Milhões e Um (2018), Conjuntura Actual Editora, ed. Novembro 2018 (pp. 226). O ex-embaixador norte-americano revela uma profunda e genuína paixão por Portugal e os Portugueses, pela sua tolerância (brandos costumes) e simplicidade. Não deve ter sido confrontando com a inveja e mesquinhez. É impressionante a quantidade de iniciativas pessoais de diplomacia económica, quer do próprio, quer da cônjuge. Houve muito mais do que vídeos a apoiar a Selecção Nacional ou desfiles de motards de Harley Davidson. A questão da Base das Lajes foi a mais sensível, mas também é possível perceber que o Presidente da Região Autónoma dos Açores se comportou como o animal do seu tamanho que é símbolo da Rússia. No fundo, não é uma biografia, não são as suas memórias, mas é um relato da sua experiência em Portugal da convivência com um povo que mudou a sua vida e o preencheu. E também sobre liderança. E onde há carisma, há sempre liderança por influência.

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9.1.19

Momentum: "Carpe Diem" (1 334)


As questões pessoais sempre na vanguarda em Portugal. O árbitro de futebol que mais depressa saca do cartão vermelho para expulsar o jogador por ofensa à sua pessoa do que por uma entrada violenta que coloca em causa a integridade física do adversário. O dirigente da empresa mais preocupado se o colaborador participa nas iniciativas sociais que ele organiza do que na eficiência ou eficácia do mesmo. A professora que se vinga e cava fundo na nota do óptimo aluno pela actuação disciplinar menos conseguida. Portugal mesquinho. Dos pequeninos.

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6.1.19

Momentum: "Carpe Diem" (1 333)


Quem tem famílias grandes depara-se com esta questão em determinada altura. Os tios e as tias, na casa dos oitenta, começam a cair como tordos e cada recordação em vídeo das festas familiares do passado torna-se num episódio de Walking Dead. É impossível imaginar a angústia daqueles que se julgam os próximos da fila. E os cinquentões começam a projectar como será aquele viver permanente com a angústia da derradeira ceifada. Como disse Ruy de Carvalho, "todos os anos passamos pelo dia da nossa morte." Por isso, conhecendo a sua finitude, mas incapazes de prever a sua ocorrência, no aniversário há quem se embebede de "caixão à cova" ou o mais recatado e racional que opta por festejar os cinquenta numas férias paradisíacas em Florença, Praga, Copenhaga ou no regresso a Londres, acompanhado pelos herdeiros legais. Porque só se faz cinquenta anos uma única vez.

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29.12.18

Quantum Satis: Vícios privados, públicas virtudes (105)


A concentração de luz é extraordinária em S. José, O Carpinteiro ( c. 1642 ). A vela realça as linhas da face de S. José e a sua gentileza. E a face iluminada de Jesus a sua natureza divina.

Georges de La Tour ( 1503 - 1652 ), S. José, O Carpinteiro ( c. 1642 )
Louvre

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28.12.18

Momentum: "Carpe Diem" (1 332)


Hoje a agenda mediática criou a ideia peregrina que os bancos são casas de penhor que concedem crédito para executarem a hipoteca e não fazem a avaliação da taxa de esforço ( DSTI — Debt Service-To-Income ), nem recorrem à garantia pessoal dos fiadores.

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27.12.18

Momentum: "Carpe Diem" (1 331)


Ele tinha um MBA do prestigiado INSEAD de Fontainebleau, proveniente duma família benzoca, casado com uma dondoca, maratonista de sucesso em condições extremas, executivo de sucesso numa PME, na casa dos trinta e muitos, pai de cinco filhos, sendo que duas das crianças vomitavam e desfaziam-se em diarreia, com os pais alienados no lufa-a-lufa do Natal ou embrenhado nas últimas no iPad. Uma semana antes do Natal, contrataram uma babysitter de dezassete anos que adoeceu com a bactéria ou vírus das pobres crianças de pais sofisticados. Na véspera de Natal, contrataram uma babysitter de dezoito anos que passou a consoada com a bactéria ou vírus das pobres crianças de pais sofisticados. Depois do Natal, adoeceu a mãe da babysitter com a bactéria ou vírus das pobres crianças de pais sofisticados. Famílias modernas.

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26.12.18

Momentum: "Carpe Diem" (1 330)


Poucos conhecerão que as origens do Boxing Day estão ligadas ao dia em que um homem sentiu-se aliviado pela mulher indisposta ter desistido de ir às compras, mas, para frustração do mesmo, ficou todo o dia a ver TV, na única box disponível da casa, impedindo-o de assistir à jornada mais famosa da Premier League.

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25.12.18

Efeméride: Espuma dos dias (33)


A Santa Família, com Santa Isabel e o pequeno S. João Baptista, a quem Jesus ainda criança entrega uma cruz feita de canas ( c. 1630 ).

Jacques Blanchard ( 1600 - 1638 ). Louvre.

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9.12.18

Momentum: "Carpe Diem" (1 329)


Ser igual a si próprio. Onde quer que esteja, o que quer que seja. Não ceder ao intolerável. Afirmar as suas convicções. When they go low, we go high. Não ter medo de perguntar quando não sabe, sinal de inteligência. Não ter medo de questionar quando não concorda, sinal de coragem. Não fazer fretes. Ser genuíno. Autêntico. Ser forte com o mais forte dos mais fortes. Não bater em alguém já no chão. Conhecer os limites. Ter filtro. Saber estar; com o insignificante ou o importante. Valorizar muito mais a educação do que o poder. Sentir a inconveniência como mais rude e ordinária do que o mero palavrão. Desprezar a inveja. Admirar as coisas simples. Fugir da ostentação. Ser de aço com a pressão social. Respeitar para ser respeitado. Ser suficientemente forte para assumir a fraqueza. Quanto mais livre mais responsável. Ter a calma, o equilíbrio e a ponderação de um gigante. Ter a vida bem resolvida. Alargar os horizontes. Indignar-se. Importar-se. Aprender a não agradar a todos. Combater o preconceito. Saber dizer não. Ser assertivo. Agradecer o elogio, tendo consciência do efémero. Perdoar, sem nunca esquecer. Semper idem. 2019.

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25.11.18

Momentum: "Carpe Diem" (1 328)



As tragédias que com maior frequência se abatem sobre Portugal não parecem desanimar o povo na sua constante busca de "pão e circo". Depois dos terríveis e devastadores incêndios do ano passado que provocaram a mortandade conhecida pela incúria e incompetência de quem nos governa e a irresponsabilidade de ter uma estreita faixa de rodagem, a que chamam estrada, rodeada de abismos de setenta metros de profundidade que são as pedreiras de Borba ou de outro lado qualquer, compensam com as grandes realizações da WebSummit ou Lisboa a inaugurar os dois milhões de luzes de Natal com fogo-de-artíficio no Terreiro do Paço. Isto no fundo não passa de uma favela com um Ferrari estacionado à porta com postigo.

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6.10.18

Bibliofilia: "A Gargalhada de Augusto Reis" (2018)

[ 141 ] Jacinto Lucas Pires, A Gargalhada de Augusto Reis (2018), Porto Editora, ed. Abril 2018 (pp.264). A história em si não é grande novidade, rodando à volta de três personagens e às arrecuas com o passado. A Revolução do 25 de Abril, Estado Novo, gente de bairro pobre de Lisboa que ascende na sua condição social e artistas frustrados não são propriamente algo que surpreenda na Literatura nacional. Isto quanto à substância, porque quanto à forma o livro está extraordinariamente bem escrito com curtos capítulos, curtas passagens e a difícil ligação entre três personagens tão distintas que trabalham a diferentes ritmos, sem necessidade de criar um calhamaço de quatrocentas páginas como se tornou agora tão frequente. Um dia, no passado já longínquo, o prof. Lucas Pires numa entrevista a um jornal desabafava com um razoável orgulho que o filho Jacinto lhe tinha dito que queria ser escritor, ao que ele lhe respondeu que para isso precisava no mínimo de conhecer as árvores. Talvez venha daí o motivo pelo qual não existe aqui uma grande história, mas existe um grande escritor.

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5.10.18

Momentum: "Carpe Diem" (1 327)


Portugal é um país acolhedor para Sol, gastronomia e cujos principais interesses são «laurear a pevide», copos, futebol e gajas. E ostentação social. Quem tem o último iPhone ou o melhor SUV. Nota-se tanto, mas tanto, quando alguém procura algo fora do mainstream como uma caneta de tinta permanente Pelikan (só no El Corte Inglés ou em Londres) ou Kaweco (mais perto só em Sevilha) ou um Traveller's Notebook da Midori ( (Amesterdão). Romances policiais no original de Georges Simenon, mesmo com a FNAC, em Paris. Em Mandeville Place, por detrás do Selfridges, e perto da Oxford St. até há uma loja exclusivamente dedicada a bonecos militares de chumbo do tempo das guerras napoleónicas para coleccionadores e não só. Agora em Portugal coleccionamos vaidade, sucesso e ostentação para grande perda da felicidade de cada um.

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4.10.18

Bibliofilia: "Dead Man's Folly" (1956)

[ 140 ] Agatha ChristieDead Man's Folly (1956), Harper Collins, ed. 2014 (pp. 238). É possível construir um padrão com as vezes em que os casos de Hercule Poirot acabam com vítimas envenenadas ou com troca de identidades. Neste caso, apesar de existirem três vítimas mortais, nenhuma delas é envenenada, há uma estrangulada, há uma que morreu no passado  — daí a troca de identidade — e, por fim, na última não é revelado o modus operandi por que é suposto ter sido acidental. O que é sempre extraordinário é o método de dedução lógica do detective, que encontra sempre as respostas nas coisas mais simples e na avaliação psicológica que faz das pessoas e das conversas que tem e que ouve. Nenhuma frase é desperdiçada, nenhuma palavra é esquecida, pois pode revelar o carácter do suspeito. A presença de Ariadne Oliver nesta história é felizmente subvalorizada, em detrimento da importância que a própria autora atribuiu quando a personagem principal recorda com saudade, na página 213 (podia ser "às páginas tantas"), que não vê o companheiro Hastings há muitos anos.

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30.9.18

Momentum: "Carpe Diem" (1 326)


Enquanto o feminismo se insurge quanto à condição de mulher-objecto nas Voltas do ciclismo, na Fórmula 1 ou nas Mota 2, na sexta-feira, ao final do dia de trabalho, três mulheres saíram de três empresas distintas no cruzamento da Barata Salgueiro com a Castilho. Uma num confortável vestido justo e apertado e curtíssimo. Outra com um macacão constituído por uns calções curtíssimos e a terceira com uns shorts dignos de qualquer praia, justificava-se face aos trinta graus que fazia. Todas de saltos altos. Ora, isto vem corroborar o estudo que agora para aí anda de que as mulheres são muito mais frias e racionais do que os homens. E isso era possível observar na cara de parvo de todos os homens que com elas na rua se cruzaram. De tão ostensivamente vestidas que estavam, nem um piropo levaram. Na empresa só podem ser executivas de sucesso. Ou famosas como a Lisa Ann que também se vestia assim para ir trabalhar.

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29.9.18

Momentum: "Carpe Diem" (1 325)


Esta cultura da familiaridade, o tu-cá-tu-lá cinco minutos depois de conhecerem uma pessoa, ainda que tenha idade para pai deles(as), esta cultura da excessiva importância da permanente jovialidade, sempre em forma, sofisticado, adepto de gadgets, do moderno, saudável, (falso) feliz, de sucesso, competitivo, ultra ambicioso: é cem mas eu só me contento com duzentos. Das tatuagens — ainda que não tenham o menor estilo para a coisa — esta cultura do chefe que vive na ambiguidade de querer parecer íntimo em privado e distante em público com o inferior hierárquico. Distante sobretudo se estiver na presença do superior hierárquico do superior hierárquico. Esta cultura da familiaridade de oito do tu-cá-tu-lá que passa logo para oitenta do doutor se o tu-cá-tu-lá chegar a chefe. E vice-versa. Esta cultura da coluna vertical de plasticina. Moldável, pois um "homem é fruto das circunstâncias" como disse em sua defesa Armando Vara. De "estes sãos os meus princípios, mas se não gostarem tenho outros". Esta cultura de betão com os fracos e de manteiga com os fortes. De desprezo pelos mais velhos. Esta cultura instalou-se, prolifera e os que ainda resistem não chegam sequer para formar uma aldeia gaulesa.

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2.9.18

Bibliofilia: "One, Two, Buckle My Shoe" (1940)

[ 139 ] Agatha Christie, One, Two, Buckle My Shoe (1940) Harper Collins, ed. 2016 (pp. 241). Tudo levava a crer que a motivação que estava por trás do homicídio, disfarçado de suicídio, do dentista de Hercule Poirot tinha a ver com a causa pública de anarquistas progressistas que procuravam alterar a ordem estabelecida representada por um importante banqueiro com excelentes relações com o poder político. Mas depois os pormenores e a perspicácia do detective fez a diferença: uns sapatos de fivela velhos que aparecem num cadáver desfigurado como novos e que revelam tamanhos diferentes colocam em dúvida a identidade dessa vítima. Dessa, porque neste romance há três mortes. Sendo que apenas uma é violenta e, como habitualmente, as restantes são envenenadas. O inspector Japp mantém-se como personagem da história que, mais uma vez, não conta com a presença de Hastings e, felizmente, muito menos com a impertinente Ariadne Oliver. Também surgem as primeiras inseguranças a Poirot se o seu envelhecimento não está a colocar em causa as suas capacidades. É curioso como nos casos de Poirot o jardineiro substitui muitas vezes o clássico mordomo, não na pessoa que comete o crime, mas na pessoa que representa quem não é. A resolução do caso acaba por estar mais uma vez na clássica troca de identidades. Se já tivesse sido introduzido o Regime Geral de Protecção de Dados (RGPD), as histórias da Agatha Christie teriam sido um fracasso.

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26.8.18

Momentum: "Carpe Diem" (1 324)


‪Rui Vitória revela maior aptidão para cumprir um dos principais projectos do Benfica: lançar com sucesso os jovens da Academia como Renato Sanches, Nélson Semedo, Lindelöf, Gonçalo Guedes, Rúben Dias, Gedson e João Félix. Por outro lado, tarda ou não consegue extrair o potencial de jogadores adquiridos e no auge da carreira como Samaris, Lisandro López, Raúl Jiménez, Carrillo, Zivković, Seferović, Rafa e Ferreyra. Pode haver aqui um défice de autoridade?‬

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15.8.18

Bibliofilia: "Cat Among the Pigeons" (1959)

[ 138 ] Agatha Christie, Cat Among the Pigeons (1959) Harper Collins, ed. 2014 (pp. 308). O prestigioso colégio e very british de Meadowbank vê-se envolvido numa conspiração internacional com início num país árabe fictício do Médio Oriente. A entrada em cena do famoso detective e fascinante personagem, Hercule Poirot, é estranhamente tardia: terceira parte do capítulo 17 (p. 217). Três mortes assolam o início do ano lectivo em Meadowbank, uma está acidentalmente relacionada com um caso de conspiração internacional, a segunda morte é motivada por chantagem e a terceira e última é um mero caso de inveja que condena de forma voluntária e natural à morte também a sua perpetradora. É uma inteligente jovem aluna que descobre parcialmente o mistério e que posteriormente recorre aos serviços de Poirot. Que como sempre tem uma enorme perspicácia na observação da fisionomia facial dos envolvidos e procura sempre confirmar que todos os envolvidos são efectivamente quem dizem ser.

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4.7.18

Bibliofilia: "Third Girl" (1966)



[ 137 ] Agatha Christie , Third Girl (1966), Harper Collins, ed. 2015 (pp. 289). Um dos romances onde a fascinante personagem de Hercule Poirot (ou a autora por ele) se revela mais preconceituoso com a modernidade que gradualmente vem abalando os alicerces clássicos. Desde os cabelos compridos dos adolescentes, ao uso das calças pelas adolescentes. Há desde o início o prenúncio de uma morte que parece tardar e diferentes padrões que fazem todo o sentido e dificultam a investigação. Há uma apropriação de identidade para furto de herança, fazendo a herdeira julgar-se louca. Como sempre a resposta encontra-se no Passado. Interessante o preconceito de Poirot contra as modernas convenções sociais. Mas a personagem de Ariadne Oliver é muito mais irritante do que o saudoso e ingénuo Hastings, que tinha algo de underdog.

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16.6.18

Momentum: "Carpe Diem " (1 323)


Jogo memorável na estreia da Seleção Nacional no Campeonato do Mundo da Rússia. Um Portugal vs. Espanha para não esquecer com empate a três. Hat-trick na estreia de Cristiano Ronaldo, o mais velho jogador de futebol a marcar um hat-trick aos trinta e três anos num Mundial. Igualando o segundo melhor marcador europeu de todas as selecções, o húngaro, Puskas, com 84 golos. Mas, numa análise mais racional, muita coisa a corrigir: muita ansiedade dos três jovens e promissores apoiantes da linha média, Bernardo Silva, Gonçalo Guedes e Bruno Carvalho, que tanta esperança oferecem e tanto prometeram no último jogo de preparação ainda no Estádio da Luz contra a ausente Argélia. Cédric Soares não chegou para as encomendas de Jordi Alba que parecia um Speedy González a passar por ele e a centrar recuado para aparecer alguém a rematar à entrada da área. Invariavelmente o ponta-de-lança brasileiro naturalizado espanhol, Diego Costa, ou o formidável playmaker Isco. O primeiro golo é precedido de falta de Diego Lopes (Sergipe) sobre o nosso naturalizado brasileiro Pepe (Maceió, Alagoas). Tradicional cotovelada na cara do adversário. Um clássico de Diego Costa. O árbitro italiano não quis estrear o VAR e na continuação da jogada o ponta-de-lança desfez uma fatia importante do Southampton 2016/2017, com José Fonte e Cédric Soares completamente aos papéis. Portugal muito bem em contra-ataque e uma nulidade em ataque organizado. O que levanta grande apreensão quando defrontar equipas teoricamente mais pequenas como Marrocos e o Irão de Carlos Queirós, no mesmo grupo. Mais uma vez, foi o melhor do mundo e mais dez. Cristiano Ronaldo pode estar a fazer o seu último Mundial — ontem fez a 151.° internacionalização —, esperemos que os toques que esteve a dar com o filho, Cristianinho, sozinhos no relvado da Luz, após o particular com a Argélia, tenha sido a passagem do testemunho, face ao talento já revelado pelo miúdo. Por que ele ontem marcou o golo do empate de livre directo depois de quarenta e cinco tentativas em fases finais.

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2.6.18

Bibliofilia: "Taken at the Flood" (1948)

[ 136 ] Agatha Christie, Taken at the Flood (1948), Harper Collins, ed. 2015 (pp. 279). Três mortes, obviamente nenhuma por doença natural, mas nem todas premeditadas ou por homicídio. Há um suicídio, um acidente, que se desconfia de assassinato, e um homicídio. Por envenenamento, como não podia deixar de ser. Há, como habitualmente, quem se faz de quem não é. E é no passado que se encontra a solução. O que esta história tem de interessante em comparação com as restantes: todo o caso está invertido, quem tem o motivo não é suspeito, nem tem a oportunidade, e quem tem a oportunidade e é suspeito não tem o motivo. Não será bem assim, porque na verdade há motivos diferentes que colidem em suspeitos contrários. David Hunter sobrevive a um bombardeamento durante a Segunda Guerra Mundial juntamente com a sua irmã, Rosaleen Underhay, recém casada com o milionário Gordon Cloade, depois do seu primeiro marido, Robert Underhay, ter desaparecido em África, o que coloca em causa toda a dependência da restante família Cloade da sua ajuda familiar. Sem testamento, a herdeira legal será a actual Rosaleen Cloade, anterior Underhay. E, se por acaso, Robert Underhay não tivesse morrido? Isso inviabilizaria a herdeira. Hercule Poirot começa a investigar este interessante caso a partir do primeiro capítulo da segunda parte do livro (p. 149).

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12.5.18

Cinefilia: "A Sociedade Literária da Tarte de Casca de Batata de Guernsey" (2018)

[ 88 ] Uma escritora sem grande sucesso, Juliet Ashton (Lily James de, p. ex., Downton Abbey), com um terrível pseudónimo, começa a corresponder-se com um criador de porcos da Ilha de Guernsey, sobre a obra do escritor Charles Lamb (1775 -1834) depois de descobrir a morada da jovem escritora num exemplar. É através dessa correspondência que toma conhecimento da origem da "Sociedade Literária da Tarte de Casca de Batata", numa época, durante a Segunda Guerra Mundial, onde o recolher obrigatório imperava em Guernsey. A história é muito mais densa do que o título aparenta. E é na tentativa de obter o acordo dos membros da sociedade literária para escrever um artigo para o suplemento literário do jornal The Times que se lhe revela, alterando profundamente a sua vida. Comovente, com paisagens cinematográficas, um excelente elenco e óptimas interpretações, o realizador Mike Newell, de Four Weddings and a Funeral (1994), fez um bom trabalho neste The Guernsey Literary and Potatoe Peel Pie Society (2018) adaptado do livro com o mesmo nome.

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6.5.18

Bibliofilia: "Death in the Clouds" (1935)

[ 135 ] Agatha Christie, Death in the Clouds (1935), Harper Collins, ed. 2015 (pp. 262). Durante um voo Paris - Croydon, uma mulher francesa, Marie Angélique Morisot ou simplesmente Madame Giselle, reconhecida agiota, é silenciosamente assassinada, obviamente com veneno. Veneno de cobra injectado através de um dardo lançado por uma zarabatana. Como é que alguém consegue usar uma zarabatana num espaço confinado, com a ausência de um momento de diversão, sem nenhum dos onze passageiros e dois comissários de bordo reparar ou notar nada de estranho? Porquê deixar a prova do crime — a zarabatana — à mercê da investigação quando existiam meios de a esconder? Ao esconder a zarabatana por debaixo do assento de Hercule Poirot, a questão tornou-se também pessoal para limpar a sua reputação. Que divide a investigação por dois caminhos: quem teve a oportunidade e quem tem o motivo? Depois é o costume, alguém diz que é quem não é e é bem lá no passado que se descobre a verdade. Hastings anda desaparecido da história, mas em sua representação existe o inspector Japp. Também começava a ficar estranho a existência apenas de uma morte em toda a trama, até à página 244. O que tem de muito bom os livros de Agatha Christie, nomeadamente com a personagem carismática de Hercule Poirot, além das boas histórias e ideias, é que dada a abundância de diálogos e as poucas descrições do tempo, da paisagem ou dos locais, permitem treinar facilmente e de forma prazenteira o Inglês.

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25.4.18

Momentum: "Carpe Diem " (1 322)


Os nossos dicionários on-line são uma série de Matryoshkas. Vejamos, e.g., o que significa a palavra "cinematográfico"? O mesmo que "cinematografia" que é igual à "cinegrafia" que, por sua vez, é o mesmo que "cinematografia". Na última boneca, naquela mais pequenina, alcança-se "processo ou prática do cinematógrafo", que não deixa de ser o mesmo que "cinematografia".

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15.4.18

Bibliofilia: "Sad Cypress" (1940)

[ 134 ] Agatha Christie, Sad Cypress (1940)Harper Collins, ed. 2015 (pp. 282). Mais um típico caso de envenenamento que envolve mais do que uma morte. Elinor Carlisle aguarda julgamento pela suspeita quase irrefutável de ter envenenado Mary Gerrard por ciúme ao ter originado o fim da sua relação amorosa com Roderick Welman. Dividido em três partes, Hercule Poirot surge apenas a partir da segunda (p. 115) quando o médico Dr. Peter Lord lhe pede com grande veemência ajuda. Quando as provas parecem incontestáveis, Poirot serve-se da importância da mentira nos testemunhos de todos os envolvidos que escuta e a quem extrai o máximo de informação. Quase todos eles, por uma ou outra razão, mentem. E há sempre um passado e alguém que não é quem aparenta ser. Só que há mentiras que por não fazerem sentido, não terem justificação, são as mais suspeitas. Há mentiras que são tão úteis como as verdades. E pensar em matar alguém não é assim tão diferente do ponto-de-vista psicológico como concretizar o acto. E Elinor Carlisle tinha contra si a oportunidade, as circunstâncias, mas faltava-lhe o motivo.

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14.4.18

Cinefilia: "O Homem de Coração de Ferro" (2017)

[ 87 ] Filmes baseados em factos verídicos também são muito interessantes. Ainda que este tenha tido a ajuda do romance HHhH do escritor francês Laurent Binet. Reinhard Heydrich (Jason Clarke), que desde novo revelou a sua personalidade violenta, incentivado pela sua ambiciosa mulher Lina Heydrich (Rosamund Pike), ascende a Reichprotektor do protectorado da Boémia-Morávia, como braço direito de Heinrich Himmler (Les beaux esprits se rencontrent), e é um dos autores da Solução Final que previa o extermínio de todo o povo judeu nos territórios ocupados pelo Einsatzgruppen (SS). O Homem de Coração de Ferro / The Man with the Iron Heart (2017), realizado por Cédric Jimenez, é também a história da Operação Antropóide (1942) quando dois pára-quedistas checos, Jozef Gabčík (Jack Reynor) e Jan Kubis (Jack O'Connell), treinados na Escócia são largados na Checoslováquia, para assassinarem Heydrich. Após consumarem o atentado duma maneira atabalhoada — Heydrich morreria dos ferimentos, uma semana depois, por septicemia — e apesar de ter sido a única vez que conseguem eliminar de forma premeditada um oficial nazi de elevada patente durante a guerra, conferindo vulnerabilidade ao III Reich, este atentado acabaria por ter graves repercussões para a Resistência e população civil pela vingança encetada, representado em toda a violência que atravessa o filme.

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13.4.18

Cinefilia: "O Jogo da Imitação" ( 2014)

[ 86 ] São sempre interessantes as biografias adoptadas ao cinema. A história do matemático inglês Alan Turing, brilhantemente interpretado por Benedict Cumberbatch, que desvendou o código secreto do alemães Enigma, criando uma máquina que estaria na origem dos computadores actuais depois de ter sido calibrada com a repetição de palavras e a quem ele deu o nome do seu colega de escola por quem se apaixonou com quinze anos (1927). Reza a História que a sua descoberta encurtou a guerra em dois anos e poupou catorze milhões de vidas à custa de outras que tiveram de ser sacrificadas para não revelar de imediato a descoberta. A história decorre essencialmente durante três períodos: quando ele é alvo de bullying na escola e desenvolve a relação especial com o colega com quem partilha o mesmo interesse pela criptografia; durante a II Guerra Mundial e depois do conflito, já nos anos cinquenta, quando uma investigação policial com origem na suspeita de que é um comunista acaba por descobrir que ele é homossexual, tendo sido condenado por isso e alvo de violentos tratamentos que o conduzem ao suicídio. É magnífico o diálogo inicial, aquando do convite, com o comandante Denniston (Charles Dance) que revela o quanto as pessoas demasiado inteligentes são incapazes de compreender coisas simples como a ironia, desprovidas de inteligência emocional. Inteligência emocional que lhe será dada por Joan Clarke (Keira Knightley) que, para alguns críticos, deveria de ter tido maiores dificuldades em afirmar-se numa época onde as mulheres não ocupavam lugares de destaque. The Imitation Game / O Jogo da Imitação (2014), do realizador Morten Tyldum, é um excelente filme, mesmo para quem não gosta de fazer palavras cruzadas.

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12.4.18

Momentum: "Carpe Diem " (1 321)


É deveras extraordinário a rapidez com que uma instituição passa da defesa da gestão do talento e mérito para a defesa da necessidade de rejuvenescimento. E não, não é a questão dos centrais que a Selecção Nacional tem utilizado (Bruno Alves, José Fonte, Pepe ou Luís Neto) e pode eventualmente levar ao Mundial da Rússia.

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8.4.18

Quantum Satis: Vícios privados, públicas virtudes (104)


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27.3.18

Momentum: "Carpe Diem " (1 320)


Das coisas mais confrangedoras no jogo particular entre as selecções de Portugal e a Holanda, em Genebra, foi a alegria e a emoção dos emigrantes portugueses a perder por três a zero. Mesmo sendo um jogo amigável é de uma pequenez atroz. É pensar pequenino. Por muita vida de sacrifício que tenham, nada deve fazer perder a dignidade humana. Que é a de cada um.

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25.2.18

Momentum: "Carpe Diem " (1 319)


Miúdo atrevido da Padaria Portuguesa ao servir uma fatia de tarte merengada de limão e depois de lhe ter sido pedido educadamente um garfo responde expedito e irónico: "claro, não ia comer isso com a mão". Logo por azar só encontrou colheres e perguntou se podia ser... Não pôde.

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10.2.18

Cinefilia: "The Post — A Guerra Secreta" (2017)

[ 85 ] Tanto podia ser uma alegoria subtil aos actuais ataques de Donald Trump à imprensa, com remoques de liderança no feminino e cenas demasiado melodramáticas da muito teatral Meryl Streep, como uma crítica severa à fraca ausência de notícias sobre o escândalo da poluição no rio da Celtejo por parte do Correio da Manhã que tem como accionistas comuns à Cofina. Uma primeira parte muito sonolenta, onde se procura manter o status quo da relação com os poderosos e o lobby político, e uma segunda parte com um ritmo mais aceitável. Tom Hanks, na pele de editor mais ousado, é mais do mesmo. Forrest Gump (1994) parece ter-lhe ficado colado à pele para todo o sempre. E nota-se mais quando a trama volta à época do Vietname e à história norte-americana. The Post The Post — A Guerra Secreta (2017) não parece ser suficientemente épico para o realizador Steven Spielberg que conseguiu melhores desempenhos em filmes históricos como A Lista de Schindler (1993) ou biográficos como Lincoln (2012).

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5.2.18

Momentum: "Carpe Diem " (1 318)


[ 12.° Aniversário ]

Num ano dominado pela crítica ao politicamente correcto e pelas questões de igualdade de género, é possível apostar que se leram mais threads do que livros, quando surge constantemente vocabulário novo como o btw. A espessura dos jornais reduz-se ao mesmo ritmo que aumenta a dos livros que quase ninguém lê. A turba continua a preferir uma boa história à José Rodrigues do Santos, Nicholas Sparks ou Ken Follett, do que o roman à clef ou o bildungsroman. A busca pela satisfação total, pela felicidade, e a necessidade da sua exibição é vital. Mostrar ao mundo as viagens, os passeios, as conquistas e a realização pessoal, quando o Banksy é que tem razão.

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4.2.18

Quantum Satis: Vícios privados, públicas virtudes (103)

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22.10.17

Momentum: "Carpe Diem " (1 317)


Questionado sobre qual o estilo de liderança com que se identificava e tendo sido confrontado com um eixo desenhado com as palavras "amor" e "medo" nos extremos, Alex Ferguson escreveu bem a meio do eixo, na parte superior, a palavra "respeito". Porque, se o eixo representa o poder, ele sabe que Maquiavel é que encorajava os príncipes a serem temidos com a justificação de que o amor quebra-se mas o temor mantém-se. O verdadeiro carácter revela-se no exercício do poder e, em pleno séc. XXI, mais do que nunca se lidera pela influência.

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21.10.17

Bibliofilia: "Oficiais e Cavalheiros" (1955)


[ 133 ] Evelyn Waugh, Oficiais e Cavalheiros (1955), Relógio D'Água Editores, Julho 2012 (pp. 150). O aristocrático Guy Croutchback, oficial britânico, dos fictícios Alabardeiros, personagem principal desta história da Segunda Guerra Mundial passada entre Creta e o Egipto, não deixa grande marca. A narrativa é confusa, e torna-se até errática, não deixando de ter o seu apontamento irónico no desembarque frustrado. Talvez tudo se possa justificar por ser um segundo livro duma trilogia onde em Portugal — vá-se lá perceber porquê — só foi publicado ainda este. Há uma sensação de se ter comido bem mas, ao mesmo tempo, ainda persiste a fome. Para gerar a empatia com tantas personagens, talvez fosse suficiente conhecer o seu background. Mas assim, com o comboio em andamento, perde-se muito da trama. Se é que há trama e não apenas crónicas de guerra.

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20.10.17

Momentum: "Carpe Diem " (1 316)


Infelizmente, já há incêndios florestais em Portugal há muitos anos. Demasiados. Já se suspeita de fogo posto, de origem criminosa, há muitos anos. Os eucaliptos estão há muitos anos identificados como causa de ignição. As alterações climáticas fazem-se sentir há muito tempo. Desde há demasiado tempo que há negligência na limpeza dos terrenos devolutos. A reforma florestal continua por fazer desde sempre. O ordenamento territorial jamais existiu. A maioria dos corpos de bombeiros sempre foi constituída por voluntários. Há dezenas e dezenas de anos que as pessoas abandonaram o interior para se fixar no litoral. Nunca houve tantos hectares de área ardida (500 ha) e com consequências tão trágicas em perda de vidas humanas (64 + 44) como em 2017. O que prova a falência do Estado. Mas ainda foram devolvidos cerca de 170 milhões de euros em IVA à restauração.

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19.10.17

Bibliofilia: "A Hora da Estrela" (1977)


[ 132 ] Clarice Lispector, A Hora da Estrela (1977), Relógio D'Água Editores, Janeiro 2002, (pp. 93). A narração é do escritor Rodrigo S. M. que descreve a vida da jovem (19 anos) e nordestina Macabéa, dactilógrafa na firma do representante de roldanas, Raimundo Silveira. Pobre e feia descobre a dignidade no seu trabalho no Rio de Janeiro e encontra a fugaz felicidade em Olímpico de Jesus, do sertão do Paraíba, antes deste a trair com a sua colega Glória. Macabéa é tão infeliz que nem sabe o que é a infelicidade. Mas é quando consulta a cartomante Madame Carlota que descobre o seu destino. Forte, intenso, despudorado e perturbador, pode a longa introspecção do narrador Rodrigo S. M., cheio de dúvidas sobre o processo de escrita, ser um reflexo ou uma extensão da própria autora?

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16.9.17

Momentum: "Carpe Diem " (1 315)


Na tasca do Pombo uma marca colocou uma máquina de café digital para fugir à obrigatoriedade do contrato. Cada vez que carrega no botão, seja para tirar um café, encher mais um bocadinho, tirar um carioca ou até enganar-se, perde créditos. Resultado, houve uma tarde que nem tinha créditos, nem os clientes beberam café depois do almoço. Ao lado, o pequeno médio empresário Amadeu falhou no mesmo dia a compra de um imóvel para investimento ou arrendamento. Motivo? Não sabia que era preciso avisar os vendedores para estarem presentes no acto da escritura. Com as Fintechs tudo irá melhorar.

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Ipsis dixit: «Pro captu lectoris habent sua fata libelli»* (222)


 

*«Os livros têm o seu destino de acordo com o poder de compreensão do leitor»
Terentianus Maurus (séc II/III d.C.)

"Quem vive sabe, mesmo sem saber que sabe. Assim é que os senhores sabem mais do que imaginam e estão fingindo de sonsos." (p. 14)

José Saramago, Ensaio sobre a Lucidez (2004)

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2.9.17

Momentum: "Carpe Diem " (1 314)


Um erro obtuso e anacrónico aquele de considerar de uma forma genérica que as mulheres conduzem pior do que os homens, que até leva a discriminação positiva por algumas seguradoras as rotularem de mais cuidadosas. O que não oferece dúvidas, e tem vindo a intensificar-se nesta sociedade tão competitiva, é o espírito generoso e altruísta que as faz ceder passagem, ainda que não tenham prioridade.

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Ipsis dixit: «Pro captu lectoris habent sua fata libelli»* (221)

 

*«Os livros têm o seu destino de acordo com o poder de compreensão do leitor»
Terentianus Maurus (séc II/III d.C.)

"Quando uma mulher se torna a casar, é porque detestava o primeiro marido. Quando um homem se torna a casar, é porque adorava a primeira mulher. As mulheres experimentam a sua sorte, os homens arriscam a deles." (p. 222)

Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray (1891)

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29.8.17

Momentum: "Carpe Diem " (1 313)


Houve partes, no sétimo e último episódio de Game of Thrones de ontem, que podiam ter sido evitadas de tão fraco conteúdo no diálogo. As bocas sobre o tamanho de pilas de Bronn a Tyrion — este último um personagem anão, o que logo à partida revela uma desvantagem, que não deverá excluir outras possibilidades assim de forma categórica (ou também aquela quebra emocional de Brienne à passagem de Jaime Lannister a mandar o juramento ou a lealdade às malvas). Escusado. Não acrescentou nada. Mas parece fazer jurisprudência, pois o mesmo tinha sucedido no episódio anterior entre os grandalhões Tormund e Clegane, The Hound. Comparam mal com a excelente cena da condenação à morte de Lorde Baelish "Mindinho" ou a transformação de uma vulnerabilidade numa enorme força de alguém literalmente sem tomates como Theon Greyjoy. No fundo há aqui uma mensagem subliminar que parece condenar a coragem ao tamanho dos pénis. À virilidade. E, se assim for, a série amadureceu bastante, uma vez que a temática não é nova. Que na oitava e última temporada se aborde o desempenho.

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25.8.17

Bibliofilia: "O Retrato de Dorian Gray" (1891)


[ 131 ] Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray (1891), Relógio D'Água, ed. Abril 1998 (pp. 276). A devassidão transposta para um retrato que encarna a figura da sua representação. Dorian Gray, corrompido pelo cínico Lorde Henry Wotton, serve-se da sua profunda beleza para procurar o máximo do prazer na ausência de ser feliz. Basil Hallward vai ser vítima da sua criatura e Sybil Vane a representação ingénua de um amor manipulado e traído. Interessante seria conhecer o conteúdo do bilhete que chantageia Alan Campbell. Alguma fixação com os meses de Maio e Novembro, o décimo dia deste último é o dia de aniversário da personagem principal. Não deixa de ser uma magistral obra alegórica sobre o carácter, o hedonismo e a virtude. Ou das consequências de quando o prazer se sobrepõe aos valores.

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16.8.17

Momentum: "Carpe Diem " (1 312)


Na TV passava a notícia de que quem trabalha oito horas por dia está mais sujeito a enfartes do miocárdio, o trabalhador que bebia um copo de vinho branco ao balcão da taberna, às oito e um quarto da manhã, disse logo que era o caso dele.

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Ipsis dixit: «Pro captu lectoris habent sua fata libelli»* (220)

 

*«Os livros têm o seu destino de acordo com o poder de compreensão do leitor»
Terentianus Maurus (séc II/III d.C.)

"(...) O incompreensível pode ser desprezado, mas nunca o será se houver maneira de o usarem como pretexto." ( p. 256)

José Saramago, Ensaio sobre a Lucidez (2004)

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