Quem Ousa, Vence!

"Como se se pudesse matar o tempo sem lesar a eternidade" Henry Thoreau (1817 - 1862) Ano XI

30.3.06

Market Research


"Desde há umas semanas para cá que o pessoal anda aí todo numa agitação e num nervoso miudinho a propósito da OPA. O que esta coisa tem de mais engraçado não está nas figuras de parvo e nos sapos engolidos por uma data de gajos apanhados com as calças na mão, mas na euforia popular em que a OPA se tornou. O que até agora só era discutido entre gajos finórios da alta e em gabinetes forrados a nota de Banco, passou a ser tema de discussão em tudo o que é tasca por esse país adentro, e à mesa de jantar de qualquer modesta casinha. Entre um copo de tinto e uma imperial fazem-se apostas sobre quem é que vai ficar a mandar naquilo, se os gajos vão contra-atacar ou se vai ficar tudo na mesma e comenta-se a dor de corno da malta que se estava a afiambrar para uns lugarzitos à maneira e ficou a ver navios.

Ora, nestas ocasiões, um gajo como eu, portador de um canudo de Economia e que tem aqui à disposição uma página de revista, é obrigado a vir explicar ao pessoal os pormenores desta história. É certo que o facto de ter conseguido acabar o curso à custa de muito copianço, namoradas burras que alombavam com os trabalhos de grupo e professores obtusos que se deixavam enganar pelos alunos na mesma medida que pelas mulheres, prejudica um bocado, mas olhem, é o que se pode arranjar, e também não há-de ser nada, que isto é claro como água.

Na práctica, uma OPA é mais ou menos a mesma coisa que uma sessão de engate num bar de alterne. Um gajo senta-se, bebe uns copos e começa a sentir uma forte inclinação por uma das competentes profissíonais que por ali circulam. Depois de um período inicial de análise, em que temos oportunidade de lhe estudar as contas e perceber o seu balanço, decidimo-nos a soprar-lhe ao ouvido a nossa proposta, que é como quem diz, lançamos a nossa OPA - oferta particular de alambazamento. Ora, a miúda não se deixa ir assim às primeiras e começa a olhar para o lado a ver se haverá por ali alguém capaz de cobrir o lance, ou seja, lançar uma OPA concorrente. No final, a coisa acaba por se decidir a favor do que tinha a carteira mais recheada, que saca a rapariga, ficando os outros a descascar pevides.

Uma coisa mais difícil de explicar é aquela história da golden share, que permite que o Estado molhe o bico de vez em quando sem ter de assumir a responsabilidade de sustentar a rapariga. Parece que os gajos lá de Bruxelas, que aquilo deve ser quase tudo malta virada para outro lado, começaram a implicar que não podia ser que se tinha de acabar com a pouca-vergonha. Andava o governo um bocado à rasca sem saber se os havia de mandar à merda ou engolir em seco, quando no meio da confusão descobriu uma solução do caraças. Fez já um acordo com o engenheiro do Norte para ter uma 'participação dourada' na empresa em vez da dita golden share. E está mesmo a ver-se que nunca mais ninguém se vai ralar com o assunto, porque os gajos da Europa não entendem patavina da nossa língua e nunca vão perceber que foram toureados à grande e que, como aliás é nosso bom costume, fica tudo rigorosamente na mesma."

in "Notícias Magazine", Manuel Ribeiro, 19Fev2006