Quem Ousa, Vence!

"Como se se pudesse matar o tempo sem lesar a eternidade" Henry Thoreau (1817 - 1862) Ano XI

1.4.06

Discriminação


"Há todo um mundo de possibilidades a abrir-se para os homossexuais. A sociedade já lhe permite fazer quase tudo. Qualquer dia, até os deixa entrar no mundo da moda. E, esta semana, foi levantada mais uma proibição antiga: os homossexuais já podem dar sangue. Qualquer pessoa minimamente educada tem dificuldade em perceber esta proibição. Qual seria o problema? Os legisladores acreditariam no perigoso bicho da homossexualidade, e na sua transmissão por via sanguínea? Não sei. E desconheço, também, de que modo era feita a fiscalização de sexualidade dos dadores de sangue. Como é que se examina um dador, para perceber se ele é ou não homossexual? Talvez haja cães que, em lugar de farejar drogas, sejam especialistas em farejar homossexualidade. Aposto que se trata de caniches. Ou, então, os inspectores recorreram a interrogatórios do tipo:
- Inspector: Bom dia. O meu amigo quer dar sangue, não é? Muito bem. É homossexual?
- Dador: Não.
- Inspector: De certeza? É que está muito bem vestido.
- Dador: Obrigado, mas não sou.
- Inspector: Hum... Estou desconfiado. Que cortinados é que acha que ficavam bem nesta janela?
- Dador: Não sei. Uns beges, talvez?
- Inspector: Ora aí está! O meu amigo percebe de decoração de interiores. É claramente, homossexual.
- Dador: Mas eu sou casado, tenho três filhos e nunca tive relações sexuais com outro homem.
- Inspector: São os piores. Adeus, bom dia.
Mas o que eu questiono, acima de tudo, é o modo de discriminar os homossexuais. Se a sociedade quer mesmo fazê-los sentirem-se mal, tem de mudar de métodos. Impedir as pessoas de dar sangue não é castigo. Eu, por acaso, sou heterossexual. Mas não me faria confusão que me impusessem essa proibição. Tenho pavor de agulhas. Ou seja, não sou homosssexual, mas sou um mariquinhas. Outro impedimento que não faz sentido: os homossexuais não podem ir à tropa. Quem me dera ser segregado desta maneira. O que eu suspirei de alívio quando fui dado como inapto para o serviço militar! Isto não é segregar, meus amigos, é favorecer. Quando a sociedade quiser segregar gente, que venha falar comigo. De segregação percebo eu. A discriminação é bastante desagradável, mas isso não se nota muito quando somos nós a praticá-la. Até porque devo confessar o seguinte: eu próprio discrimino pessoas com base nas sua opções sexuais. Por exemplo: sou capaz de deixar de falar a amigos, se descobrir que eles optaram por praticar sexo com a minha mulher. Chamem-me preconceituoso, mas sou assim e não mudo."

in "Visão", Ricardo Araújo Pereira, 30Mar2006