Quem Ousa, Vence!

"Como se se pudesse matar o tempo sem lesar a eternidade" Henry Thoreau (1817 - 1862) Ano XI

2.4.06

O fim da tradição


"(...) Humphrey morreu há uns dias, em Downing Street, para onde tinha entrado ainda no tempo de Margaret Thatcher. Para sorte dos sucessivos Governos britânicos desde então (John Major e Tony Blair), Humphrey era apenas um gato vadio recolhido na residência do Premier, e não um funcionário de carne e osso. Só esse facto explica que, ao longo dos anos em que viveu no n.º 10 de Downing Street, ele não tenha sido uma valiosa fonte de informação para os tablóides ingleses, conforme se tornou prática corrente dos funcionários internos ao serviço da realeza e dos políticos de Sua Majestade.
Humphrey e Margaret Thatcher viveram uma feliz relação mútua, sem história, como seria de prever olhando para o aspecto da sr.ª Thatcher, verdadeiro protótipo da mulher que vive com gatos. Major, que lhe sucedeu no partido e na residência, não ousou, obviamente, pôr em causa o estatuto de Humphrey. O mesmo, porém, não fez o casal Blair, que chegou a Downing Street com outras ideias, tais como ter crianças em vez de gatos. Quando se soube que eles tinham chutado Humphrey para fora, foi um escândalo tão grande, que os Blair, para não ficarem mal na fotografia, tiveram de mandar buscá-lo de volta e publicar um extraordinário comunicado, falando do equívoco que tinha acontecido e do seu desvelado amor aos gatos. Mas o pior estava para vir: Humphrey comeu o canário de Downing Street! A Associação de Defesa dos Animais interrogou, com indignada consternação: como é que Blair poderia governar a Inglaterra e a Inglaterra aspirar a voltar a governar o mundo, se nem sequer conseguia impedir o gato de comer o canário? Será que ele se interessava verdadeiramente pelas condições em que viviam os animais de Downing Street?

Foi por essa altura, que Blair, pressionado pela Associação de Defesa dos Animais, tomou a histórica decisão de proibir a caça à raposa a cavalo - talvez o mais fantástico espectáculo que se pode ver no campo e fonte de inspiração para pintores como Hobarth e Constable. Com isso, ele livrou-se das complicações criadas com Humphrey e voltou a restabelecer a sua reputação junto de um poderoso lóbi eleitoral. E para o cesto de papéis foram parar todos os apelos dos proprietários rurais, que em vão tentaram explicar ao primeiro-ministro e aos Comuns que não se tratava apenas de liquidar uma tradição secular e um desporto genuíno, mas também de provocar um profundo golpe na economia dos criadores de cavalos e cães de caça e ameaçar a sustentabilidade de proprietários e agricultores a quem Bruxelas recomenda o set aside e actividades alternativas chamadas agro-ambientais - entre as quais, a caça, justamente, é a melhor combinação possível entre a preservação do ambiente e a obtenção de receitas.

Mas era preciso dar satisfação aos chamados amigos dos animais. Esses tais que pensam que, protegendo o gato, se protege o canário e protegendo a raposa, se protegem as galinhas de capoeira e as aves selvagens. E que todos viverão felizes para sempre, nessa Arca de Noé sem Noé, que imaginam ser a natureza. Agora, Humphrey está morto. Haja alguma coisa de verdadeiramente natural que eles não conseguem mudar!"

in "Expresso, Miguel Sousa Tavares, 01Abr2006