Quem Ousa, Vence!

"Como se se pudesse matar o tempo sem lesar a eternidade" Henry Thoreau (1817 - 1862) Ano XI

28.4.06

Trio maravilha


(Night Watch, Rembrandt, 1642)

"Três amigos encontram-se ao fim de vinte anos, não imaginando que iriam enriquecer em muito menos tempo que o tempo que os separou. Em conversa sobre as suas profissões actuais - consultor, corretor e contabilista -, numa festa do colégio de freiras onde estudaram juntos até ao 12º ano, chegaram à conclusão de que tinham competências muito complementares...

(...) Então e qual é que iria ser a fórmula para o rápido enriquecimento dos três amigos? Um golpe muito simples, em que, aproveitando as habilidades de cada um, comprariam uma empresa em Bolsa e vendê-la-iam por dez ou vinte vezes mais (criando um efeito-bolha que, esperavam, deveria estoirar nas mãos de compradores gulosos). A operação recebera o nome de código 'A Bolha de CO3', em virtude do 'CO' contido nas palavras que definiam a sua profissão e porque eram três.

O Consultor tratou de arranjar uma pequena empresa cotada que, por estar a passar um mau bocado, tinha acções a preço de saldo. Recorrendo à base de credibilidade alcançada e ao penhor dos bens que herdara, conseguiu, com alguns sócios, comprar a quase totalidade do capital. Depois, com alguma reengenharia financeira, que atirou com o serviço da dívida para dali a dez anos (conquistando solidez no curto prazo), e o anúncio de um projecto de grande sucesso, que passava pela aquisição de uma boa empresa não cotada, aprestou-se a fazer um aumento de capital.

Preparado o terreno, através de contactos prévios do profeta consultor, o corretor entrou em acção, conseguindo um conjunto de ordens de compra, depois de muito acenar com a necessidade de dar a ordem depressa - porque a procura era bastante e já havia poucas acções para vender (disfarçando a ânsia de vender, através da indicação de que o montante da ordem não podia ser muito elevado em virtude da escassez face à procura).

Conseguida a colocação das acções a preço elevado, compraram, então, a tal empresa e recuperaram os bens dados como penhor. A empresa comprada (evidenciando melhor capacidade de endividamento) sustentaria agora a saúde financeira da compradora, cotada mas em dificuldades.

Nos dias a seguir à compra, houve contudo que dar uma aquecimento ao mercado. Para isso, o corretor encarregou-se de comprar um grande lote aos pequenos investidores que quiseram rapidamente realizar uma mais valia. O dinheiro utilizado foi o dinheiro cedido a título de empréstimo pela empresa. Com a redução do número de títulos disponíveis, seria então mais fácil fazer subir a cotação das acções outra vez (incluindo no esquema o expediente de comunicação de ordens a preços muito elevados no momento de fecho da Bolsa, seguida da desistência da ordem logo na abertura do dia seguinte).

Para aumentar receitas, [o contabilista] inventou vendas a subsidiárias ou a empresas falidas, bem como encomendas e guias de remessa fantasmas. Como a empresa desenvolvia actividades plurianuais (do tipo da construção civil), sossegou ainda os investidores com o anúncio de volumosas carteiras de encomendas e com o reconhecimento antecipado de vendas que só deveriam ser contabilizadas no período seguinte.

Para reduzir os custos, capitalizou abusivamente custos com marketing e publicidade, software, projectos, manutenção e outros - registando-os nos livros como se de congéneres de instalações ou de equipamentos se tratasse. Não constituiu provisões para cobranças duvidosas, nem para existências, pensões ou impostos, alterou o critério de cálculo de amortizações e registou despesas correntes como extraordinárias.

Finalmente, para reduzir o valor dos investimentos necessários - que sendo altos espantariam os investidores (como o inquilino que prevê ter que fazer muitas obras na casa do senhorio) -, subestimou as necessidades de expansão da actividade ou a renovação de equipamentos e instalações e evidenciou demasiado optimismo face às necessidades de fundo de maneio, prevendo que clientes iriam pagar mais cedo e que fornecedores não se importariam de receber mais tarde.

Tudo correu e corria, pois, às mil maravilhas. Até que um dia...

(...) Chatearam-se: o consultor aconselhou o corretor a comprar um lote de acções de uma empresa praticamente falida, fazendo um favor a uns velhos amigos em situação de crise; para pagar essas acções, o corretor vendeu um Citroën 2 CV ao contabilista por cerca de cinco mil contos; este último, por sua vez, enganou os dois primeiros nas contas da sociedade!"

"Contos de Colarinho Branco", Paulo Morgado