Quem Ousa, Vence!

"Como se se pudesse matar o tempo sem lesar a eternidade" Henry Thoreau (1817 - 1862) Ano XI

2.5.06

Amigalhaços


(Supper at Emmaus, Caravaggio, 1600-1601)

"Abel iria aprender a importância dos amigos, da cumplicidade.

Foram a um café, onde encontraram um amigo do pai, por 'acaso' (o pai sabia que não tinha sido por acaso...). Conversa puxa conversa e lá começaram a jogar um jogo de moedas. Cada um dos três, rodando à vez, escolhia par ou ímpar, podendo levar na mão uma ou nenhuma moeda. Sempre que o somatório das moedas desse par (zero era considerado par), o único que tivesse escolhido par (se tal se verificasse) recebia dos outros dois; o mesmo acontecendo com a escolha de um ímpar. Numa jogada em que nenhum ganhasse, o dinheiro de todos acumulava para a jogada seguinte.

Começaram a jogar e, às tantas, o amigo do pai foi ao WC. O pai combinou então com Abel uma forma de ambos nunca perderem: sempre que um dos dois escolhesse par, o outro escolheria ímpar. Quando o amigo voltou, continuaram a jogar e assim sucedeu: o pai e o filho ou ganhavam ou nunca perdiam. Só que o pai também ia depenando o filho (já que o amigo do pai, sempre que podia e nas apostas em que havia mais dinheiro envolvido, escolhia sempre o que Abel escolhia - impedindo assim que Abel fosse o único a escolher par ou ímpar). O filho, apesar de raramente ganhar (só para disfarçar é que deixavam que tal acontecesse), lá continuava todo contente, pois sabia que iria partilhar os ganhos com o pai.

Só no final do jogo o pai explicou ao filho que, numa situação real, os ganhos afinal seriam partilhados com o amigo, que era, para efeitos de demonstração da 'teoria da amizade', o seu verdadeiro cúmplice naquele jogo."

"Contos de Colarinho Branco", Paulo Morgado