Quem Ousa, Vence!

"Como se se pudesse matar o tempo sem lesar a eternidade" Henry Thoreau (1817 - 1862) Ano XI

28.5.06

Equívoco?


(The Deposition, Caravaggio, 1604)

"(...) Julgo que o último texto que escrevi sobre Timor era uma coisa completamente ingénua e deslocada do momento, onde, a 25 anos de distância, repetia o que já havia escrito, enquanto jovem estagiário de jornalismo, dois meses antes da invasão da Indonésia, em 1975: que Timor não estava preparado para ser independente. Não estava em 75 e não estava em 2000. O referendo deveria, pois, conter uma terceira alternativa às da anexação na Indonésia ou independência: o regresso à administração portuguesa, até que o território reunisse um mínimo de condições de estabilidade e autogoverno para se poder tornar um país.

Obviamente, e por razões de pudor ideológico, ninguém com poder considerou tal possibilidade, nem lá nem cá. O mesmo se passou, genericamente, com todas as ex-colónias portuguesas em 1975, particularmente com a Guiné-Bissau e S. Tomé e Príncipe - com as trágicas consequências que se têm verificado desde então. É mais importante a força dos preconceitos ideológicos do que a felicidade dos povos. Cinco ou seis anos de administração portuguesa competente, investindo nas infra-estruturas básicas, formando quadros políticos e de administração, entrosando um sistema de governo democrático, instalando uma justiça e uma informação independentes, matando à nascença as tentações de corrupção e carreirismo, transformando um grupo de guerrilha num exército regular ao serviço do Estado, poderiam ter tornado Timor-Leste um país sem história e saldado, enfim, a dívida de Portugal para com eles. Mas isso, como se sabe, seria (oh, horror dos horrores!) uma manifestação de «neocolonialismo».

E assim Timor se tornou, diz-se, independente. As consequências estão agora à vista. Bastou que a exploração de petróleo no off-shore se tornasse economicamente viável, para que, tal como em S. Tomé e Príncipe, a riqueza potencial se transformasse num problema e não numa solução. Devemos nós agora, depois de tudo o que temos feito nos últimos seis anos para ajudar Timor, voltar a enviar para lá a GNR porque os Fretilins não se entendem entre eles, divididos entre a partilha do poder e a das futuras receitas do petróleo? Francamente, já não estou tão certo dessa nossa obrigação. Todos têm direito a uma oportunidade, não sei se têm direito a duas, quando conscientemente desperdiçaram a primeira. Temo que 50 GNR em Timor não evitem o destino final que eles cavaram para si próprios: serem engolidos, desta vez, pela Austrália."

in "Expresso", Miguel Sousa Tavares, 27Mai2006