Quem Ousa, Vence!

"Como se se pudesse matar o tempo sem lesar a eternidade" Henry Thoreau (1817 - 1862) Ano XI

3.5.06

O poder da informação


(The Canoeist's Luncheon, Pierre-Auguste Renoir, 1880)

"'Isabel, vamos fazer um jogo: contamos o dinheiro que temos nas nossas carteiras e quem tiver mais ganha o dinheiro do outro.' Isabel, boa aluna a matemática, e que até julgava que o pai só usava cartões e cheques, aceita o desafio. De facto, a esperança de ganho - ficar com o dinheiro do pai, caso tivesse mais dinheiro na carteira - seria sempre superior à de perda - ficar sem o seu dinheiro, caso a sua carteira tivesse menos dinheiro que a do pai. O pai pensava exactamente o mesmo. Como ambos pensavam exactamente o mesmo, o jogo parecia equilibrado. Só que não era...

O pai explicou a Isabel que ela perderia o jogo de certeza, porque ele tinha preparado a sua carteira, forrando-a de notas. Ele, que propôs o jogo, detinha esta informação; ela não.

De seguida, o pai convidou Isabel para sair. (...) Dirigiu-se com a sua filha para uma zona onde sabia existir o jogo das três conchas. O jogo consistia em adivinhar sob que concha se encontrava a ervilha, baseando a sua dificuldade na rápida manipulação das conchas por parte de um malabarista.

Isabel viu sob que concha foi (supostamente) colocada a ervilha. Depois seguiu atentamente os movimentos do malabarista e apontou a concha que julgava albergar o legume. Enganou-se. Enganou-se repetidas vezes, Depois, o malabarista até decidiu facilitar-lhe a vida. Aceitou virar uma concha vazia, depois de as manipular, facilitando-lhe a escolha. Isabel concluiu que as probabilidades de acertar seria agora de 1/2 e não de 1/3 como se verificara anteriormente. Errou. A probabilidade não se tinha alterado. Não se tinha alterado porque, explicou-lhe o pai, a ervilha era sempre retirada do jogo entre dois dedos habilidosos. Ou seja, todas as três conchas estavam sempre vazias no momento da escolha e o malabarista conhecia antecipadamente essa informação (Isabel, não).

Isabel aprendeu a lição: no jogo da vida, ganha quem tiver informação relevante que o seu adversário não possui."

"Contos de Colarinho Branco", Paulo Morgado