Quem Ousa, Vence!

"Como se se pudesse matar o tempo sem lesar a eternidade" Henry Thoreau (1817 - 1862) Ano XI

26.4.07

Bibliofilia: "Almas Mortas"

(Rua de S. Bernardo, Abel Manta, 1928)

A quinta leitura deste ano, “Almas Mortas”, Nikolai Gógol, Assírio & Alvim, ed. Junho 2002, 507 pp., 22,50 euros, decorre no cenário da Rússia do séc. XIX e narra a demanda de Pável Ivánovitch Tchítchikov para comprar “almas mortas”, servos de gleba masculinos, propriedade, juntamente com a respectiva família, de determinado senhor da terra para hipotecá-los ao Estado, como bem valioso da época, apesar de já mortos, antes do último censo. Abundam as verstás (medida itinerária da Rússia equivalente a 1 060 metros), os mujiques (camponeses russos), samovares (chaleiras russas para preparar o chá) e isbás (habitações de madeira que consistem geralmente em duas casas ligadas uma à outra por um pátio comum). Só a partir da p. 295 o autor, que constantemente interage com o leitor – numa analogia ao estilo de Saramago – nos revela a verdadeira dimensão deste herói educado nos preceitos do pai: “Vê lá, Pavlucha, se estudas, se não fazes asneiras, se não és mandrião; sobretudo, usa de lisonja para com professores e superiores. Se agradares aos superiores, mesmo que não faças progressos nos estudos e mesmo que Deus te não tenha dado grandes talentos, andarás para a frente e ultrapassarás os outros todos. Não faças amizade com os colegas, eles não têm nada de bom para te ensinar; mesmo assim, caso faças alguma amizade, que seja com os mais ricos, para te ajudarem se for preciso. Não presenteies ninguém, faz antes com que os outros te presenteiem e, em primeiro lugar, poupa o teu copeque: é essa a coisa mais segura no mundo. O colega ou o amigo vão aldrabar-te e serão os primeiros a trair-te na desgraça, mas já o copeque te será sempre fiel em todos os contratempos (p. 298).”

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