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"Como se se pudesse matar o tempo sem lesar a eternidade" Henry Thoreau (1817 - 1862) Ano XII

15.9.08

Actualidade: Madonna em Lisboa

"Ontem à noite, no Parque da Bela Vista
Madonna em Lisboa: rainha há só uma.


O concerto de Madonna há quatro anos, no Pavilhão Atlântico, marcou um antes e um depois na história dos concertos em Portugal. O de ontem, no Parque da Bela Vista, não teve o mesmo impacto, mas não deixou de ser um marco para os milhares de fãs que a viram pela primeira ou segunda vez. Vieram de todo o país. Do estrangeiro também, com destaque para a presença espanhola. A viagem valeu a pena. Esperava-os a grandiosidade, a atenção ao pormenor, a boa forma e a sensualidade da norte-americana que dita as regras da pop. Ali, no mesmo espaço em que Britney Spears desiludiu (Rock In Rio 2004), até a princesa da pop se redimiu. Pelas mãos da rainha.É num trono que Madonna entra em cena, sem falsas modéstias. No meio de um aparato visual estonteante e do maior aplauso que Lisboa já deu a um artista de uma vez só (75 mil pessoas), surge a tão aguardada figura, poderosamente sentada em cabedal preto. Levanta-se e ataca Candy shop, do último álbum, Hard Candy, que dá o mote a esta Sticky & Sweet Tour. Dele vem também Beat goes on e, com ele, os ecrãs ocupados por Pharell Williams e Kanye West . Estamos em pleno cenário Pimp, o primeiro dos quatro actos que compõem o concerto. Que entrem então o pulsar urbano, o eco do hip-hop e, porque não?, um carro branco com jantes de fazer inveja a qualquer rapper. Human nature é acompanhado por um vídeo fabuloso, que usa um elevador como metáfora para a claustropobia da fama. A protagonista é Britney Spears, numa das suas melhores actuações (como cantora e actriz). Em Vogue já se ouve o tic-tac de 4 Minutes. Todo o alinhamento revela, aliás, o quanto Madonna gosta de misturar canções, suas e/ou alheias, sempre com arranjos diferentes dos originais. Depois de Die another day, em que assistimos a um combate de boxe (com ringue), chega Into the groove e outra Madonna, de fato-de-treino minúsculo e vontade de brincar. O capítulo Old Scholl acaba de chegar e traz bonecos animados de Keith Harring, diversão, cor e salto à corda para animar. Até que Madonna colapsa. Nos ecrãs, a linha do batimento cardíaco acompanha o "ressuscitar". Não é um saltinho à corda que a vai parar. Heartbeat abre alas para Borderline, em guitarras com distorção. She's not me exibe as várias fases de Madonna, em manequins humanos tratados como bonecas de imitação. Music reabre a pista de dança.A envolvência começa a ser mais exótica com Rain e Devil wouldn't recognize you. Abre-se o capítulo Gipsy, para uma Spanish lesson (está visto que perguntar ao público se fala castelhano funciona em todo o mundo, menos em Portugal). Instala-se uma festa cigana com ritmo de fazer inveja a Kusturica. Miles away é a viagem pelo mundo que antecede La Isla Bonita. Ainda há tempo para renovar o pedido de You must love me, antes da explosão do acto Rave. A sequência que se segue é o maior doce que Madonna podia colocar no topo deste alinhamento, menos dado a êxitos que o de há quatro anos e, talvez por isso, recebido com menor entusiasmo. Os temas estão bem frescos na memória e são para lá de contagiantes: Get stupid, 4 Minutes (em dueto virtual com Justin Timberlake), Like a prayer, Ray of light, Hung up e Give it 2 me (com uma pitada de Express yourself). Ao milímetroInfalível, rigoroso, ensaiado ao milímetro, o espectáculo está desenhado para ser uma corrente contínua de música, imagem, dança e outros regalos para a vista. Os ecrãs movem-se, o palco transforma-se, o público está perto da rainha, os espantosos efeitos visuais sucedem-se. Por outro lado, a inteligência de Madonna não a deixa passar ao lado da oportunidade de tocar as 75 mil consciências que concentram toda a energia naquilo que tem a dizer. De forma simplificada (e a tempos hipócrita, dirão os cépticos), correm mensagens espirituais (contra o tom hermético das instituições religiosas), mensagens políticas (confirma o apoio a Barack Obama, reitera a rejeição de Hitler e... John McCain), mensagens de paz (Mandela, Bono, Lennon, Luther King…), mensagens sociais (o materialismo como reverso da medalha da guerra e do vale-tudo).Tudo o mais é um show musical perfeitamente alinhavado e sem quaisquer tempos mortos. Há sempre um vídeo, uma dança ou uma encenação concebida para manter o público com os olhos pregados no palco, mesmo quando Madonna se ausenta e corre aos bastidores para trocar de roupa. É demasiado programado? É. Afinal, este espectáculo é uma máquina de entretenimento. Mas não é um espectáculo que prenda a cantora dentro de um formato. Vive dela e para ela. Madonna sente-se visivelmente em casa. Maior que a sensualidade e o profissionalismo, só a segurança. Madonna conhece bem os seus limites (a voz, por exemplo), mas conhece ainda melhor o seu potencial. Faz questão de tocar guitarra (e mostrar o grande progresso de há quatro anos a esta parte), tal como faz questão de cantar ao vivo (mesmo que a voz lhe queira, por vezes, fugir de cansaço), dando uma lição constante a todas as pretendentes ao trono. O ritmo mantém-se imparável ao longo de mais de vinte temas. Madonna é uma show-woman inigualável e inalcançável no seu savoir faire. Como ela não há nenhuma. Ponto final. Ou, na linguagem desta digressão, Game Over."

15.09.2008 - 17h30 - poshpipa, Lisboa
- O Parque da Bela Vista, com morros de terra e árvores em todo o lado, não comporta 75 mil pessoas. Uma coisa é um festival como o rock in rio, em que pessoas diferentes vão ver bandas diferentes a horas diferentes. Outra coisa são 75 mil ao mesmo tempo. Resultado: mais de metade do público só viu o espetáculo pelos ecrãs, e com sorte. Para isso, e por 60 euros, mais vale comprar o DVD da tourné. - Não é normal que depois de pagar 60 euros, as pessoas ainda tenham de ir dormir de véspera para o recinto para conseguirem ver o espetáculo com o mínimo de qualidade. Se vendem 75 mil bilhetes, devem pensar nas 75 mil pessoas que os compraram e não apenas nos 10 ou 15 mil loucos que vão para lá de véspera ou 5 horas antes das portas abrirem. - milhares de pessoas demoraram mais de uma hora e meia para entrar no recinto (e depois da desilusão de verem muito pouco do palco ainda tiveram quase duas para chegar a casa - isto só os lisboetas). A Madonna foi fantástica, como é sempre, mas o concerto do Pavilhão Atlântico foi incomparavelmente melhor! A mim não me voltam a apanhar num concerto desta produtora Everithing is new, q só quis facturar o mais possivel, descurando a qualidade.

in "Público"