Quem Ousa, Vence!

"Como se se pudesse matar o tempo sem lesar a eternidade" Henry Thoreau (1817 - 1862) Ano XI

18.8.09

Bibliofilia: "O Leilão do Lote 49"

Thomas Pynchon, O Leilão do Lote 49, Relógio D’Água, Junho 2009, pp. 136. Não é fácil racionalizar uma obra que começa quando Oedipa Maas aluga um quarto num motel em San Narciso para se encontrar com o advogado Metzger co-testamenteiro como ela do milionário Pierce Inverarity, seu antigo amante, e constata que este é um ex-actor de cinema quando passa o único filme que ele interpretou na TV no preciso momento em que estão reunidos. E a história do filme é tão simples como um avô, o neto e o seu cãozinho S. Bernardo que andam ali para os lados do estreito de Dardanelos num submarino a afundar navios turcos. “O cão observa o periscópio e ladra quando vê qualquer coisa de suspeito.” (p. 22) Mas já a história da reunião termina com um strip-tease Boticelli quase com a integral assistência da boy’s band teenager, os Paranoids, comandada por Miles que, por sua vez, é o recepcionista do motel. Depois há uma conspiração mafiosa com os ossos dos cadáveres de soldados de infantaria norte-americanos da II Guerra Mundial usados como filtros de cigarros Beaconsfield. Há ainda um psiquiatra chamado Dr. Hilarius que com caretas induziu artificialmente a loucura nos judeus presos no campo de concentração de Buchenwald e que actualmente receita LSD aos maridos. E “todo um submundo oculto de suicidas falhados em contacto uns com os outros graças ao sistema secreto de correspondência” (p. 26) WASTE que não será o único acrónimo, pois também AC-DC Alameda County Death Cult (Culto da Morte do Município de Alameda) e CIA - Conjuración de los Insurgentes Anarquistas fazem-lhe uma satírica companhia. E no cerne da questão, do enredo ou, se quiserem, da plot: “Oedipa confrontava-se (...) com uma metáfora de sabe Deus quantas partes: mais do que duas, em todo o caso. Com coincidências brotando por todo o lado, naqueles últimos dias, e ela não tinha mais do que um som, uma palavra, Trystero, para ligar tudo aquilo.” (p. 81) Uma vez que as diferentes e excêntricas personagens se cruzam largando pistas sobre essa sociedade secreta que mantinha um sistema paralelo e subterrâneo de correios que ao longo da História entrou em conflito com os Thurn and Taxis, que tinham como símbolo uma trompa de caça com uma única espiral, e eram correios privados “desde 1 300, até ao resgate de Bismarck (1867), (…) [e] foi o mais importante serviço postal na Europa (p.72). (…) Trystero opusera-se na Europa ao sistema postal da Thurn and Táxis; o seu símbolo era a trombeta de correio com uma surdina; antes de 1853 apareceu na América e luta contra o Pony Express e a Wells Fargo, sob a forma de bandidos de preto, ou disfarçados de índios; e sobrevive hoje na Califórnia, servindo como meio de comunicação para as minorias sexuais não ortodoxas (p. 81).” Complexo? Não. Paranóico. A obra pynchoniana é repleta de ciência, mitologia, ocultismo, tecnologia, música pop, desenhos animados, drogas, psicologia, química, física, filosofia, parapsicologia, História, sátira e paraneia, neste caso, condensado em 136 páginas. Os mais pragmáticos vão estranhar, mas depois pode ser que se entranhe.

Etiquetas: