Quem Ousa, Vence!

"Como se se pudesse matar o tempo sem lesar a eternidade" Henry Thoreau (1817 - 1862) Ano XI

9.8.09

In absentia: A linha do horizonte (5)


Creio que no início de Julho, creio que mais precisamente no dia 5 desse mês, espoletou uma controvérsia entre o consagrado fotógrafo profissional Edgar Martins, prémio BES Photo 2008, a residir em Londres, e o jornal norte-americano New York Times, por manipulação digital. Reza a história que algumas das fotografias do projecto Ruins of the Second Guilded Age – obra onde se propõe registar imóveis ainda em construção, em vários Estados norte-americanos, que foram abruptamente interrompidos pela derrocada do mercado imobiliário –, encomendado pelo jornal norte-americano terão sido adulteradas pelo Photoshop. A crítica e o preconceito não é consensual, pois ao que parece Edgar Martins é tido por um artista, e, como tal, pode fazer o que lhe apetece, e não propriamente um fotojornalista de registo documental que tem uma obrigação profissional para com a verdade, pelo que a manipulação digital pode ser um dos meios para consagrar uma peça de arte. A questão acaba por ser mais processual, mais de forma do que de substância, porque ao que parece o jornal tinha incluído uma nota prévia salientando que não existia nenhuma manipulação digital das fotografias expostas e o artista não deveria ter permitido que isso tivesse acontecido como rótulo das suas obras. Já Shakespeare, em 1603, tinha trabalhado com a “prova ocular”: quando o general mouro ao serviço do exército de Veneza, Otelo, pede uma prova do adultério de sua mulher, Desdemona, com o seu tenente, Cássio, ao fiel Iago depois das insinuações deste. Iago mostra-lhe a prova quando rouba e deposita um lenço oferecido por Otelo a Desdemona, e de grande significado sentimental, no quarto de Cássio para que Otelo o veja. Quando Otelo se esconde no quarto de Cássio, por sugestão de Iago, assiste assim à discussão ciumenta entre Cássio e Bianca, sua amante e prostituta, que desconfiou deste após descobrir também ela o lenço. Eis a “prova ocular”. À margem da polémica, fica abaixo uma outra “prova ocular” que não sendo uma grande obra também não teve qualquer manipulação digital. Garanto-o. À Iago.

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