Quem Ousa, Vence!

"Como se se pudesse matar o tempo sem lesar a eternidade" Henry Thoreau (1817 - 1862) Ano XI

25.10.09

Bibliofilia: "Caim"

José Saramago, Caim, Editorial Caminho, Setembro 2009, pp. 181. Deus na sua infinita misericórdia ensinou-nos a ser tolerantes, e o último romance de Saramago é uma sátira à Bíblia escrito da forma magistral que nos habituou e que nem sempre reúne o consenso. Caim, a personagem principal da história, filho primogénito de Adão e Eva - cuja “rotina conjugal, agravada, no caso destes dois, pela nula variedade nas posturas por falta de experiência, já então se demonstrou tão destrutiva como uma invasão de carunchos a roer a trave da casa” (p. 14) –, mata Abel, o irmão, por ciúme a Deus. Carregado de ironia, com anjos de asas com avarias mecânicas, não merecia tanta polémica, porque “como tudo, as palavras têm os seus quês, os seus comos e os seus porquês. Algumas, solenes, interpelam-nos com ar pomposo, dando-se importância, como se estivessem destinadas a grandes coisas, e, vai-se ver, não eram mais que uma brisa leve que não conseguiria mover uma vela de moinho, outras, das comuns, das habituais, das de todos os dias, viriam a ter, afinal, consequências que ninguém se atreveria a prever, não tinham nascido para isso, e contudo abalaram o mundo.” (p. 55) Soubessem todos os outros rir-se de Saramago e soubesse Saramago também rir-se de si próprio, porque “mesmo a inteligência mais rudimentar não teria qualquer dificuldade em compreender que estar informado sempre será preferível a desconhecer, mormente em matérias tão delicadas como são estas do bem e do mal, nas quais qualquer um se arrisca, sem dar por isso, a uma condenação eterna num inferno que então ainda estava por inventar” (p. 15).

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