Quem Ousa, Vence!

"Como se se pudesse matar o tempo sem lesar a eternidade" Henry Thoreau (1817 - 1862) Ano XI

9.1.10

Ipsis dixit: A subtileza do pensamento (11)

"(...) Uma situação que sempre existiu e da qual se fala muito mas pouco se escreve. É o indivíduo incompetente de quem nunca se diz mal nem bem. Fala-se dele. Mas não em público. E ele sobrevive graças a esse silêncio. Por ser boa pessoa. Sabe que aquilo que faz não presta e não chateia ninguém para falar dele. Mais: agradece o silêncio, sabendo quanto custa abafar os grandes desagrados que causa. Para ele, os outros é que são boas pessoas por guardar segredo e consentir o sofrimento que inflige ao público. Pode ser também uma pessoa com azar, que faz pena. É o coitado. Não se diz mal dele porque é coitado. O coitado escusa de ser um gajo porreiro. Pode até ser um sacana de primeira. Pode chatear toda a gente para falarem dele, invocando o azar que faz dele um coitado. Mas é tão mau o que ele faz que ninguém consegue descer a esse ponto. Oferece-se, em vez disso, o silêncio. E com o silêncio, lá se vai governando o coitado. É este o tom superior de quem lamenta a impunidade dos gajos porreiros e dos coitados em Portugal e assim explica por que triunfa a mediocridade entre nós. (...)"

Miguel Esteves Cardoso, O bom silêncio, “Ainda ontem”, Público 07 01 2010

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