Quem Ousa, Vence!

"Como se se pudesse matar o tempo sem lesar a eternidade" Henry Thoreau (1817 - 1862) Ano XI

5.3.11

Cinefilia: "Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme" (2010)

As notas de dólar deviam de dizer "only in God we trust" ou, em alternativa, "in greed we trust". Gordon Gekko (Michael Douglas) representa o homem nietzschiano para quem a moral e a razão pouco importam, pois tudo é tomada de poder, tudo é poder, nem sequer se trata de uma questão de dinheiro, apenas competição. Só assim se comprende que em 2008, depois de oito anos de prisão que culminaram em 2001, pelos crimes de insider trading praticados ainda no tempo de Bud Fox (Charlie Sheen), consiga ludibriar o "jovem turco" Jacob Moore (Shia LaBeouf), namorado da filha Winnie (Carey Mulligan), e desviar os fundos de uma conta num banco suiço para voltar ao auge. Jacob Moore tem menos substância que Bud Fox, porque menos carismático, menos ambicioso e ingénuo e mais anódino que o fulgurante yuppie dos anos oitenta, por isso menos entusiasmante, menos cativante. Nem Bretton James (Josh Brolin) se compara a Sir Lawrence Wildman (Terence Stamp) de 1987. Por isso esta sequela nunca terá a magia do original, embora tenha de ser dado o respectivo desconto com a minha crescente embirração com sequelas e remakes. O que acrescenta valor (para usarmos termos financeiros) é a caracterização do ambiente socio-económico contemporâneo com o rebentar de bolhas especulativas que dão lugar a outras e que já são alvo de análise histórica como a alusão à bolha das túlipas no mercado holandês, salvo erro, do séc. XVII. No filme, parece que a Keller Zabel Investments (KZI) e o consequente suícidio do seu responsável, Louis Zabel (Frank Langella), mentor de Jacob Moore, acontece primeiro que o fatídico 15 de Setembro de 2008, dia da extrema unção do "sólido" Lehman Brothers, alvo das mais elevadas notas de rating na véspera. Não se percebe porque a tradução consegue durante todo o filme evitar referir-se ao termo alavancagem, optando por “investimentos financeiros inflacionados”, quando qualquer taxista contemporâneo, fruto das circunstâncias, conhece o termo. Bem como nunca é referido o termo subprime, assunto que atravessa todo o filme e culmina com a mãe de Jacob Moore, Sylvia Moore (Susan Sarandon), a abandonar a actividade de agente imobiliária para voltar à antiga profissão de enfermeira. Wall Street: Money Never Sleeps / Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme (2010), realizado (também) pelo mesmo Oliver Stone, deveria de servir de lição quando cita – algo que julgo ter sido citado por Albert Einstein –, “quando continuamos sempre a fazer as coisas da mesma forma com péssimos resultados, acabamos por atingir a insanidade.”

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