Quem Ousa, Vence!

"Como se se pudesse matar o tempo sem lesar a eternidade" Henry Thoreau (1817 - 1862) Ano XI

1.3.11

In Limine: Assim tudo começa (22)


“Agora e na hora da nossa morte e amén, a refrega vai dar-se dentro de minutos, escolhidos num desdobrável impresso a quatro cores, bem aparado e composto, cortesia da companhia dos comboios, hora escolhida por ser mais próxima do levantar, de manhã é que se começa a morte, a mesma palavra duas vezes na mesma frase, esta é uma mulher que esgotou já os talentos literários, entre outros. A hora, então. Às 07h26 Vanessa vai deixar-se trucidar por uma composição vinda de Meleças, zona onde a promessa de vida a meia dúzia de minutos da Cidade entronca com a linha do Oeste e com as paredes salpicadas de tags de Mira Sintra, nome que é toda uma rasteira, sobretudo porque não nos faz olhar para o ponto onde se está mas sim para o horizonte, goze-se a vista idílica de Byron entre outros demónios, esqueça-se o betão esfarrapado, os andares encavalitados, os comboios que partem a horas certas. É a vocação suíça de Meleças, enviar composições no tique-taque dos dias sem grandes falhas, composições repletas de gente que tem de ter atenção à distância entre a plataforma e a carruagem, como avisam as vozes monótonas do operador, cuidado com a saúde, as entorses e a quebra de expectativas tanto na entrada como na saída. Cuidado.”

Pedro Vieira, Última Paragem, Massamá, Quetzal, Fevereiro 2011 (pp. 207)

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