Quem Ousa, Vence!

"Como se se pudesse matar o tempo sem lesar a eternidade" Henry Thoreau (1817 - 1862) Ano XI

10.4.11

Bibliofilia: "Manhã Submersa" (1953)

Vergílio Ferreira, Manhã Submersa (1953), Quetzal, 28.ª ed. 2011 (pp. 187). Quase três anos de sofrimento passou António dos Santos Lopes, o “Borralho”, no seminário de Coimbra, emboscado entre a falta de vocação, o sentimento de culpa e a saudade da sua terra, Castanheira, na Beiras, numa época em que as oportunidades escasseavam. Filho de gente muito pobre, foi entregue aos cuidados da família de D. Estefânia, que tendo um filho como médico, lhe traçou o destino como padre. O relato pungente desses anos vividos sobre a severidade eclesiástica é duma riqueza poética magistral, dominado pelo sentimento de culpa de alguém contrariado que é obrigado a frequentar o seminário, privado da liberdade de escolher o seu destino, como futuro sustento da família e o desejo de querer ser homem, querer ter mulher (p. 161). Como mesmo o maior mal é acompanhado pelo mais reduzido benefício, desenvolvem-se entre os seminaristas fortes relações de cumplicidade, cimentadas pela falta de coragem de combater os desejos familiares que, sem piedade, os desterraram, e é assim encontrada uma solução para o termo do suplício, mesmo não sendo esta a mais ortodoxa.

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