Quem Ousa, Vence!

"Como se se pudesse matar o tempo sem lesar a eternidade" Henry Thoreau (1817 - 1862) Ano XI

4.4.11

Ipsis dixit: Marcador de livros (16)



“Lentamente, silencioso, fui-me colando todo a mim mesmo, até ao mais íntimo de mim. Incha-me no crânio, devagar, um vapor quente e sanguíneo. Para um centro imprevisível, em giros rápidos de aço, uma fina teia radia-me das unhas das mãos e dos pés. Voga agora, na água límpida da memória, uma imagem branca dormente. Depois esvai-se. Depois regressa. Depois desaparece definitivamente, mas deixa, ó Deus, deixa uma presença vivíssima, vivíssima, vivíssima, como chaga que nos fica de um ferro em brasa. Bruscamente, porém, tudo em mim rebrilha incandescente. Uma estrídula gritaria levanta-se-me no cérebro, um guincho agudo fura-me a cabeça de um ouvido ao outro e um murro surdo, absoluto, abate-me finalmente. Dobro-me sobre mim, rendido, e ali me deixo ficar, longamente esquecido da vida, de tudo…” (p. 116)

Vergílio Ferreira, Manhã Submersa (1953), Quetzal, 28.ª ed., 2011 (pp. 187)

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