Quem Ousa, Vence!

"Como se se pudesse matar o tempo sem lesar a eternidade" Henry Thoreau (1817 - 1862) Ano XI

15.8.11

Bibliofilia: "Lustrum" (2009)

Robert Harris, Lustrum, Editorial Presença, 1.ª ed., Julho 2011 (pp. 442). Autor de ficção histórica, como em Pátria (1992), onde a Alemanha sai vitoriosa da Segunda Guerra Mundial, o inglês Robert Harris (n. 1957), depois de no primeiro livro ter narrado a vida de Marco Túlio Cícero (106 a.C. – 43 a.C.) como senador, contado pelo seu escravo e secretário pessoal, Tirão, neste segundo volume da trilogia (os dois primeiros publicados e traduzidos em Portugal, o terceiro também só será originalmente publicado este ano), relata a vida de Cícero enquanto mais alto dignitário da República Romana: cônsul, em 63 a.C., na primeira parte, e já depois de abandonar o consulado, de 62 a.C. a 58 a.C., na segunda parte do livro. A história não poderia ter sido melhor relatada por outro, Tirão é alguém que tem “demasiados escrúpulos em relação aos meios menos próprios da política” (p. 279), como Cícero reconheceu. Durante a República Romana (508 a.C. – 27 a.C.) e também durante o primeiro triunvirato (59 a.C. – 53 a.C.) de César, Pompeu e Crasso, e na antecedência do segundo triunvirato de Octávio Augusto, Marco António e Lépido, e, finalmente, do Império Romano (27 a.C. – 1453), Cícero consegue colmatar a ausência de riqueza (comparado com Crasso), de heróicos feitos militares (comparado com Pompeu, “O Grande”) e de raízes familiares aristocráticas (comparado com Hortênsio, Catulo e Híbrido) com a oratória, agilidade de raciocínio, sagacidade e a premeditação dos seus actos políticos, numa época dominada pela intriga e a traição. Com irónicos episódios, como quando Pompeu regressa das conquistas e a sua filha de nove anos cuidadosamente preparada para o receber escolhe um poema de Homero que reza: “Voltaste da guerra; o meu desejo é que tivesses morrido por lá.” (p. 286) Ou, menos evidente, quando alguém chamado Célere fica tão demorado quanto à decisão a tomar. Cícero torna-se arrogante e soberbo depois de terminado o consulado e ter salvo Roma da conspiração ambiciosa de Catilina (primeira parte do livro) e cede perante a força da Besta de Três Cabeças que foi o primeiro triunvirato, sendo obrigado a abandonar Roma (segunda parte do livro) encurralado pela sua némesis, Júlio César, que se serve das Assembleias Populares, do povo por si manipulado, para enfraquecer o Senado, onde Cícero domina.

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