Quem Ousa, Vence!

"Como se se pudesse matar o tempo sem lesar a eternidade" Henry Thoreau (1817 - 1862) Ano XI

3.1.12

In Limine: Assim tudo começa (28)

“O primeiro caso de pólio daquele verão deu-se no princípio de Junho, pouco depois do Memorial Day, num bairro italiano pobre, do lado da cidade oposto àquele em que vivíamos. No canto sudoeste da cidade onde ficava o bairro judaico de Weequahic não soubemos de nada, como não soubemos da dúzia de casos seguintes espalhados por quase todos os bairros de Newark menos o nosso. Só por altura do 4 de Julho, quando já se registavam quarenta casos na cidade, apareceu na primeira página do vespertino um artigo com o título ‘Autoridade Sanitária Alerta Pais para Riscos da Pólio’, em que o Dr. William Kittell, diretor do Departamento de Saúde Pública, era citado a prevenir os pais para a necessidade de vigiarem de perto os seus filhos e contactarem um médico no caso de alguma criança apresentar sintomas como dor de cabeça, dores de garganta, vómitos, rigidez do pescoço, dores articulares ou febre. Embora reconhecesse que quarenta casos de pólio eram mais de o dobro dos registados normalmente numa fase tão incipiente da estação da pólio, o Dr. Kittell queria deixar bem claro que a cidade de 429 000 habitantes não estava de modo nenhum a sofrer aquilo que se podia caracterizar como uma epidemia de poliomielite. Nesse verão, como em qualquer verão, havia razões para preocupação e para adotar as adequadas precauções de higiene, mas nada justificava o tipo de alarme revelado por alguns pais, ‘perfeitamente justificado’, vinte e oito anos antes, durante o maior surto da doença alguma vez registado – a epidemia de pólio de 1916, no nordeste dos Estados Unidos, em que se tinham registado mais de 27 000 casos, com 6 000 mortes. Em Newark houvera 1 360 casos e 363 mortes.”

Philip Roth, Némesis (2010)

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