Quem Ousa, Vence!

"Como se se pudesse matar o tempo sem lesar a eternidade" Henry Thoreau (1817 - 1862) Ano XI

4.10.14

Antologia: " Verba volant, scripta manent" (1)



"Seria exactamente esse o cenário do espetacular quadro de Renoir, Le déjeuner des canotiers. Uma tarde de boémia simpática na Maison Fournaise, um restaurante à beira-Sena, num subúrbio recentemente ligado por comboio a Paris. Para lá dos salgueiros prateados avistam-se barcos à vela e um barco a remos. Um toldo às riscas vermelhas e brancas protege o grupo da torreira do sol. Estamos no fim do almoço no novo mundo de Renoir, um mundo de pintores, mecenas e atrizes, onde todos são amigos. Os modelos fumam, bebem e conversam entre as garrafas vazias e os restos da refeição deixados nas mesas, em total à-vontade.

A atriz Ellen Andrée, com uma flor no chapéu, leva o copo aos lábios. O barão Raoul Barbier, antigo governador da Saigão colonial, com o seu chapéu de coco castanho puxado para trás, fala com a jovem filha do proprietário. O irmão dela, com o chapéu de palha dos remadores profissionais, está de pé em primeiro plano, controlador. Caillebotte, descontraído e musculado, de camiseta branca e chapéu de ramador, senta-se a cavalo na sua cadeira, a olhar para a jovem costureira Aline Charigot, amante e futura mulher de Renoir. O artista Paul Lhote passa um braço proprietário por cima da atriz Jeanne Samary. Um viveiro de namoricos e de conversas sorridentes.

E Charles [Ephrussi] está presente. É o homem lá no fundo, de chapéu alto e fato preto, visto de lado. Mal lhe vemos o perfil, mas distinguimos a barba castanho-ruiva. Fala com um Laforgue de rosto aberto e mal barbeado, vestido como um poeta que se preza, com um boné de operário e o que talvez seja um blusão de bombazine." (p. 84)

Edmund de Waal, A Lebre de Olhos de Âmbar - Uma Herança Escondida (2010)

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