Quem Ousa, Vence!

"Como se se pudesse matar o tempo sem lesar a eternidade" Henry Thoreau (1817 - 1862) Ano XIII

11.1.10

In absentia: A linha do horizonte (8)


Depois da falência do Banco de Investimento norte-americano Lehman Brothers, na segunda-feira de 15 de Setembro de 2008, e já no auge das repercussões negativas para o mercado, quando os Bancos deixam de conceder empréstimos, estancando a liquidez do mercado, o secretário do Tesouro Henry (Hank) Paulson pressionou a fusão entre o poderoso, mas também repleto de dificuldades, Banco de Investimento de Wall Street Merrill Lynch, cujo presidente-executivo era John Thain – anterior “número dois” de Hank Paulson no Goldman Sachs –, e o mais conservador Bank of America (BoA), de Charlotte na Carolina do Norte, liderado por Kenneth (Ken) Lewis. Foram propositadamente omitidos dados relevantes sobre os prejuízos do Merrill Lynch aos accionistas do BoA de modo a ser aprovada a fusão em tempo recorde. Nada melhor do que a notícia de uma fusão (Merrill Lynch/BoA) para acalmar os mercados financeiros da notícia de uma falência (Lehman Brothers).


Quando no final de 2008 o Merrill Lynch apresenta 15 milhões de dólares de prejuízos e Ken Lewis pretende abortar o negócio é pressionado por Hank Paulson e o presidente da Reserva Federal Ben Bernanke, numa reunião a 17 de Dezembro de 2008, para concluir a fusão à revelia do conhecimento dos accionistas do BoA, tendo como arma de pressão o Troubled Asset Relief Program (TARP), i.e., o programa de resgate/salvamento dos activos financeiros tóxicos. Após a conclusão da fusão, os prejuízos do Merrill Lynch são divulgados e as repercussões catastróficas no valor de mercado do BoA (atingiu em 2008 valores de 1981) custaram a cabeça a John Thain, que tinha anteriormente feito lobby para receber dez milhões de dólares de compensação por ter conseguido um acordo que tinha salvo o Merril Lynch do mesmo destino do Lehman Brothers.


Esse foi o leitmotiv, mas Ken Lewis escondeu informação relevante e danosa dos accionistas do BoA para aprovação da negociação sobre a fusão com o Merrill Lynch; o secretário do Tesouro Hank Paulson não permitiu divulgar essa mesma informação, antes de concluída a fusão que pressionou através do TARP; o Merrill Lynch negociou bónus/prémios milionários aos seus executivos de topo quando os resultados já eram desastrosos. O salário médio anual no Bank of America era de 75 mil dólares. O salário médio anual no Merrill Lynch era de 235 mil dólares. O agressivo Merrill Lynch tinha (tem) sede em Wall Street, o conservador Bank of America tinha (tem) sede em Charlotte, Carolina do Norte. Há um ditado alemão que diz que quando se corta madeira ficam sempre lascas no chão.

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6.12.09

In absentia: A linha do horizonte (7)


Este fim-de-semana vi no Panorama BBC o presidente da Berkshire Hathaway, que tem anos em que é considerado o homem mais rico do mundo (embora nunca tão rico como o Cristiano Ronaldo que tem na sua posse outras riquezas, materializadas na Merche Romero, na Nereida Gallardo, e desmaterializadas na Paris Hilton), com uma fortuna avaliada em mais de 40 mil milhões de dólares, que é mais do que o PIB de metade dos 192, 193, 194 ou 195 (se o Alberto João Jardim não tiver declarado a independência da Madeira nas últimas 24 horas como forma de pressão para aprovação do Orçamento de Estado rectificativo-suplementar-redistributivo) países do mundo, afirmar que nunca se mete em nada que não perceba (traduzindo: nunca compra nada que não domine o negócio); que quando investe num negócio, investe à séria, i.e., investe grandes quantidades, e nem se preocupa muita com a diversificação, como foi o caso da Coca-Cola, American Express e Walt Disney; que só faz aquisições estratégicas e não financeiras, ou seja, investe a longo-prazo e não para especular, também por isso não olha para o valor das empresas que adquiriu diariamente, semanalmente ou mensalmente; que nunca recorre a financiamento (alavancagem) – e para isso detém um negócio que lhe permite assegurar bastante liquidez duma forma antecipada, que não é o que o Modelo Continente faz com os fornecedores, mas parece, através da companhia de seguros Gleico, cuja cobrança de prémios das apólices que cobrem os riscos seguros constituiu uma receita antecipada para as empresas deste homem que vive na mesma casa, que comprou por 31 mil dólares, há mais de 50 anos; que só compra carros usados (mas em bom estado); que não come vegetais, gosta de fast-food e, quando lhe apetece, come gelados e amendoins ao pequeno-almoço; que comprou uma slot machine para colocar em casa para os filhos, quando ainda eram pequenos, gastarem a mesada; que passa o tempo constantemente a ler (relatórios e contas?); que não usa computadores; que não conhece pessoalmente as empresas que adquiriu ou que irá adquirir; que gosta de jogar bridge com o seu grande amigo Bill Gates, a quem doou uma parte importante da sua fortuna à Fundação deste. Warren Buffet, com uma genuína modéstia, não reconhece que enriqueceu muitas pessoas, apenas acredita que essas pessoas ficaram ricas porque não venderam.

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10.9.09

In absentia: A linha do horizonte (6)


Quanto vale uma tradução? É que cada vez estou mais anglo-saxónico e não é pelos resultados da equipa das quinas. Enquanto as 661 páginas de Demónios de Dostoiévski e da Editorial Presença, custam 25 euros, as 694 páginas de Devils do mesmo Dostoyevsky, mas da Wordsworth Editions custam cinco euros. Enquanto os quatro volumes (1-399 pp., 2-435 pp., 3-447 pp. e 4-413 pp.), a 17,45 euros cada, da Guerra e Paz do Tolstói e da Editorial Presença custam o total de 69,80 euros para as 1 694 páginas, as 994 euros do War and Peace do mesmo Tolstói, mas da Wordsworth Editions, custam cinco euros. Será do corpo da letra? É que o O Castelo do Kafka e da Relógio d’Água com 339 páginas custa 20 euros e o The Castle da Wordsworth com 283 páginas custa 5,70 euros. Será das capas? É que os dois volumes dos Irmãos Karamazov do Dostoiévski com 914 páginas (1-525 pp. mais 2-389 pp.) custam um total de 39,90 euros (22,45 euros do primeiro volume adicionado de 17,45 euros do segundo) e as 870 páginas dos Brothers Karamazov da Wordsworth Editions custam cinco euros. Das capas? As capas das editoras nacionais são lisas por contraste com as interessantes e pictóricas capas das editoras inglesas. Acontece apenas com os clássicos? Ou estes também serão os próximos?

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9.8.09

In absentia: A linha do horizonte (5)


Creio que no início de Julho, creio que mais precisamente no dia 5 desse mês, espoletou uma controvérsia entre o consagrado fotógrafo profissional Edgar Martins, prémio BES Photo 2008, a residir em Londres, e o jornal norte-americano New York Times, por manipulação digital. Reza a história que algumas das fotografias do projecto Ruins of the Second Guilded Age – obra onde se propõe registar imóveis ainda em construção, em vários Estados norte-americanos, que foram abruptamente interrompidos pela derrocada do mercado imobiliário –, encomendado pelo jornal norte-americano terão sido adulteradas pelo Photoshop. A crítica e o preconceito não é consensual, pois ao que parece Edgar Martins é tido por um artista, e, como tal, pode fazer o que lhe apetece, e não propriamente um fotojornalista de registo documental que tem uma obrigação profissional para com a verdade, pelo que a manipulação digital pode ser um dos meios para consagrar uma peça de arte. A questão acaba por ser mais processual, mais de forma do que de substância, porque ao que parece o jornal tinha incluído uma nota prévia salientando que não existia nenhuma manipulação digital das fotografias expostas e o artista não deveria ter permitido que isso tivesse acontecido como rótulo das suas obras. Já Shakespeare, em 1603, tinha trabalhado com a “prova ocular”: quando o general mouro ao serviço do exército de Veneza, Otelo, pede uma prova do adultério de sua mulher, Desdemona, com o seu tenente, Cássio, ao fiel Iago depois das insinuações deste. Iago mostra-lhe a prova quando rouba e deposita um lenço oferecido por Otelo a Desdemona, e de grande significado sentimental, no quarto de Cássio para que Otelo o veja. Quando Otelo se esconde no quarto de Cássio, por sugestão de Iago, assiste assim à discussão ciumenta entre Cássio e Bianca, sua amante e prostituta, que desconfiou deste após descobrir também ela o lenço. Eis a “prova ocular”. À margem da polémica, fica abaixo uma outra “prova ocular” que não sendo uma grande obra também não teve qualquer manipulação digital. Garanto-o. À Iago.

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2.8.09

In absentia: A linha do horizonte (4)


Graças à geoengenharia descobri recentemente que o mundo é de plasticina. Porquê? Porque é possível manipular de forma intencional e em larga escala o ambiente da Terra para combater as alterações do clima, pelo menos segundo a Sociedade Americana de Meteorologia. Como os Estados parecem não conseguir o consenso quanto à redução das emissões de gazes poluentes (CO2), a alternativa poderá estar em escurecer o planeta e reflectir mais raios solares de volta para o espaço, diminuindo a temperatura terrestre, através da injecção de dióxido de enxofre (SO2) na estratosfera; ou usar navios com canhões de água para carregar as nuvens com água salgada, de forma a ficarem mais brancas; ou ainda plantar, em latitudes mais a norte, florestas com a copa mais clara. Ainda outra solução poderá ser a fertilização dos oceanos com ferro para promover a proliferação de algas. Mas, como qualquer remédio, poderá ter efeitos secundários ou resultados ambivalentes. Sendo que um deles poderá ser o desviar das atenções da actual política de corte de emissões.

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24.7.09

In absentia: A linha do horizonte (3)


Em substituição duma excelente série, Irmãos e Irmãs, às 22:40 horas das sextas da RTP 2, e depois de também uma anterior série excelente, Seis Graus ou, no original, Six Degrees, outra excelente série, Mad Men. Retrato da América dos anos 60, onde é comum fumar, nos espaços públicos e, sobretudo, no local de trabalho, abusar do álcool, ser racista, homofóbico, mas também misógino. Nesta agência de publicidade, a Madison Avenue de Manhattan, pede-se às colegas que se vistam de forma mais reveladora. O papel da mulher é o da secretária, telefonista ou dona-de-casa. Mas também surge a pedrada no charco com a filha do empresário que assume as rédeas do negócio. O personagem principal, Don Draper (Jon Hamm), é o director criativo, cuja criatividade não anda nos melhores dias, neste primeiro episódio da estreia, quando tem de apresentar uma nova campanha para a marca de tabaco Lucky Strike. Madison Avenue Manhatan é Mad Man.

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23.7.09

In absentia: A linha do horizonte (2)


Chegados à silly season, mais do que nunca, pensemos em valter hugo mãe, propositadamente em minúsculas, pois é assim que ele escreve, para quem, p.e., os pontos de interrogação são redutores. Ele próprio um galardoado com o Prémio Literário José Saramago. O mesmo José Saramago que tem uma sintaxe também ela muito própria: abaixo os pontos de exclamação, interrogação, reticências, as aspas e o itálico! O texto a fluir em igualdade democrática de maiúsculas e minúsculas ou de nomes e adjectivos. Pensemos também na expressão dos anarquistas, o “dinamite cerebral” (sic JPP): os livros e os jornais, as revistas e os CD’s, os DVD’s e os blogues, a televisão e a rádio, mas sejamos críticos e selectivos recorrendo, sempre que necessário, a preciosa e sempre cuidada ajuda aqui (28-06-2009), aqui (05-07-2009), aqui ( 12-07-2009) e também aqui (19-07-2009). Mas também aqui, com certo humor, porque molda e define o temperamento. Em directo, todos os domingos às 21:35 horas e durante 16’ na SIC Notícias. Ou em diferido, tal como um jogo de futebol, aqui. Só para quem gosta. Para quem privilegia a reflexão às palavras, o silêncio ao ruído. O longo prazo ao efémero. A estratégia à táctica. A estrutura à conjuntura. A substância à forma. And so on... Ter opinião sobre a opinião. Concorde-se ou não. Sempre, mas mais do que nunca na silly season.

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18.7.09

In absentia: A linha do horizonte (1)


O meu filho mais novo, por razões meramente pessoais, anda num conceituado colégio de Lisboa. Agora, ao acabar a infantil e ao entrar para o 1.º ano, o grupo de colegas foi dividido em duas turmas, tendo sido colocado na primeira todos os “Habsburgos”, “Holsteins” e Bourbons” e na segunda turma os restantes. Nem de propósito, ao ler o jornal Público de ontem, associei de imediato à “bárbara consanguinidade” da Casa da Áustria, quando Maximiliano I (1459 – 1519), imperador da Alemanha, alargou os seus domínios servindo-se de alianças matrimoniais. Casou com a prima materna, Maria de Borgonha, ganhando assim a Borgonha e a Flandres, e casou o seu filho primogénito, Felipe de Habsburgo, “o Belo”, (1478 – 1506), com Joana I, “a Louca”, (1479 – 1555), rainha de Castela. O neto Fernando casou ainda com Ana da Hungria, obtendo a soberania sobre a Hungria e a Boémia. E o nosso D. Manuel I viria a casar com D. Leonor de Áustria, filha de Carlos V. Sendo que este último, por sua vez, viria a casar com a infanta portuguesa D. Isabel, filha do seu cunhado e sogro. D. João II viria a casar-se com a princesa Catarina da Áustria e a casar a sua filha com Felipe de Castela, seu cunhado e simultaneamente genro. É que toda esta endogamia provoca um aumento significativo do coeficiente de consanguinidade (proporção de genes idênticos recebidos dos progenitores) equivalente ao de uma relação incestuosa afectando a saúde e reduzindo a esperança de vida do “sangue azul”. Será que a implosão da Monarquia pode ter originado também o surgimento da República? Amicitia tibe iunge pares...

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