Quem Ousa, Vence!

"Como se se pudesse matar o tempo sem lesar a eternidade" Henry Thoreau (1817 - 1862) Ano XIII

4.1.12

In Limine: Assim tudo começa (29)

“Se estão mesmo interessados nisto, então a primeira coisa que devem querer saber é onde é que nasci, e como foi a porcaria da minha infância, o que faziam os meus pais e tudo antes de eu ter nascido, e toda essa treta estilo David Copperfield, mas não estou nada para aí virado, para dizer a verdade. Primeiro, porque é o tipo de coisa que me chateia, e segundo porque os meus pais eram capazes de ter dois ataques cada um se eu me pusesse a contar alguma coisa de mais pessoal acerca deles. São bastante suscetíveis com coisas do género, especialmente o meu pai. São simpáticos e tudo… não é isso… mas também são suscetíveis como o raio. E depois não lhes vou contar a merda da minha autobiografia toda nem nada que se pareça. Vou-lhes contar só aquela história de loucos que me aconteceu o ano passado por volta do Natal antes de me ter ido completamente abaixo e de ter vindo parar aqui para me pôr em forma. Aliás, também foi só o que contei ao D.B. e ele é meu irmão e tudo. Ele está em Hollywood. Não fica muito longe deste sítio merdoso e vem cá visitar-me praticamente todos os fins de semana. É ele que me vai levar de volta para casa quando sair daqui talvez para o mês que vem. Comprou agora um Jaguar. Um daqueles brinquedinhos ingleses capazes de dar trezentos à hora. E que não lhe custou muito menos do que quatro mil brasas. Tem massa que se farta, agora. Dantes não. Era um escritor a sério, quando estava em casa. Escreveu aquele livro de contos incrível, O Peixinho Vermelho Secreto, para o caso de nunca terem ouvido falar. O melhor era ‘O Peixinho Vermelho Secreto’. Era sobre um miudito que não deixava ninguém ver o próprio dinheiro. Deixou-me sem fala. Agora está em Hollywood, o D.B., a prostituir-se. Se há uma coisa que odeio, é o cinema. Nem quero que me falem disso.”

J.D. Salinger, À Espera no Centeio (1951)

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3.1.12

In Limine: Assim tudo começa (28)

“O primeiro caso de pólio daquele verão deu-se no princípio de Junho, pouco depois do Memorial Day, num bairro italiano pobre, do lado da cidade oposto àquele em que vivíamos. No canto sudoeste da cidade onde ficava o bairro judaico de Weequahic não soubemos de nada, como não soubemos da dúzia de casos seguintes espalhados por quase todos os bairros de Newark menos o nosso. Só por altura do 4 de Julho, quando já se registavam quarenta casos na cidade, apareceu na primeira página do vespertino um artigo com o título ‘Autoridade Sanitária Alerta Pais para Riscos da Pólio’, em que o Dr. William Kittell, diretor do Departamento de Saúde Pública, era citado a prevenir os pais para a necessidade de vigiarem de perto os seus filhos e contactarem um médico no caso de alguma criança apresentar sintomas como dor de cabeça, dores de garganta, vómitos, rigidez do pescoço, dores articulares ou febre. Embora reconhecesse que quarenta casos de pólio eram mais de o dobro dos registados normalmente numa fase tão incipiente da estação da pólio, o Dr. Kittell queria deixar bem claro que a cidade de 429 000 habitantes não estava de modo nenhum a sofrer aquilo que se podia caracterizar como uma epidemia de poliomielite. Nesse verão, como em qualquer verão, havia razões para preocupação e para adotar as adequadas precauções de higiene, mas nada justificava o tipo de alarme revelado por alguns pais, ‘perfeitamente justificado’, vinte e oito anos antes, durante o maior surto da doença alguma vez registado – a epidemia de pólio de 1916, no nordeste dos Estados Unidos, em que se tinham registado mais de 27 000 casos, com 6 000 mortes. Em Newark houvera 1 360 casos e 363 mortes.”

Philip Roth, Némesis (2010)

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2.1.12

In Limine: Assim tudo começa (27)



“O nevoeiro pairava sobre a terra. O brilho dos faróis dos automóveis reflectia-se nos fios de alta tensão estendidos ao longo da estrada.”

Vassili Grossman, Vida e Destino (1961)

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30.12.11

In Limine: Assim tudo começa (26)

“– Então, Piotr? Ainda não se vê nada? – A vinte de Maio de mil oitocentos e cinquenta e nove, um fidalgo de quarenta e poucos anos, sem chapéu, com um sobretudo coberto de pó e umas calças aos quadrados, saía para o alpendre baixo da estalagem na estrada de X… e interrogava assim o seu criado, um jovem de rosto cheio com uma pequena penugem esbranquiçada no queixo e uns olhinhos inexpressivos.” (p. 9)

Ivan Turguéniev, Pais e Filhos (1862)

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8.5.11

In Limine: Assim tudo começa (25)


“It was not a street anymore but a world, a time and a space of falling ash and near night. He was walking north through rubble and mud and there were people running past holding towels to their faces or jackets over their heads. They had handkerchiefs pressed to their mouths. They had shoes in their hands, a woman with a shoe in each hand, running past him. They ran and fell, some of them, confused and ungainly, with debris coming down around them, and there were people taking shelter under cars.”

Don DeLillo, Falling Man (2007)

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26.4.11

In Limine: Assim tudo começa (24)



“Havia um homem de pé, encostado à parede norte, quase invisível. As pessoas entravam aos pares ou em grupos de três e paravam no escuro e olhavam para o ecrã e depois saíam. Por vezes mal transpunham a soleira da porta, grupos mais numerosos que vagueavam sem rumo até ali, turistas atordoados, e olhavam e apoiavam-se ora num pé, ora no outro, e depois iam-se embora.”

Don DeLillo, Ponto Ómega, Sextante Editora, 1.ª ed., Março 2011 (pp. 120)

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24.3.11

In Limine: Assim tudo começa (23)


“Tomei o comboio na estação de Castanheira, depois que o Calhau deixou de me abraçar. Foi ele que me trouxe no carro dos bois de D. Estefânia, em cuja casa, como se sabe, me talharam o destino. Minha mãe veio ainda à igreja, pela madrugada, ver-me partir; mas sentindo-me tão distante como se eu fosse preso, como se eu já pertencesse a um mundo que não era o seu – mal me falou. Por seu lado, D Estefânia, defendendo a gravidade até ao último instante, olhando a minha mãe do alto das conveniências, disse-me brevemente que fosse na paz de Deus – e desapareceu. Sozinhos no carro, Calhau abismava-se no grande silêncio da manhã. Apenas de vez em quando, emergindo da solidão, mas fixo ainda na radiação de tudo, dizia coisas naturais da terra e das sementes, ou perguntava de novo a que horas era o comboio.”

Vergílio Ferreira, Manhã Submersa, 28.ª edição, 2011, Quetzal (pp. 187)

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1.3.11

In Limine: Assim tudo começa (22)


“Agora e na hora da nossa morte e amén, a refrega vai dar-se dentro de minutos, escolhidos num desdobrável impresso a quatro cores, bem aparado e composto, cortesia da companhia dos comboios, hora escolhida por ser mais próxima do levantar, de manhã é que se começa a morte, a mesma palavra duas vezes na mesma frase, esta é uma mulher que esgotou já os talentos literários, entre outros. A hora, então. Às 07h26 Vanessa vai deixar-se trucidar por uma composição vinda de Meleças, zona onde a promessa de vida a meia dúzia de minutos da Cidade entronca com a linha do Oeste e com as paredes salpicadas de tags de Mira Sintra, nome que é toda uma rasteira, sobretudo porque não nos faz olhar para o ponto onde se está mas sim para o horizonte, goze-se a vista idílica de Byron entre outros demónios, esqueça-se o betão esfarrapado, os andares encavalitados, os comboios que partem a horas certas. É a vocação suíça de Meleças, enviar composições no tique-taque dos dias sem grandes falhas, composições repletas de gente que tem de ter atenção à distância entre a plataforma e a carruagem, como avisam as vozes monótonas do operador, cuidado com a saúde, as entorses e a quebra de expectativas tanto na entrada como na saída. Cuidado.”

Pedro Vieira, Última Paragem, Massamá, Quetzal, Fevereiro 2011 (pp. 207)

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10.2.11

In Limine: Assim tudo começa (21)


“2 de Novembro
Fui cordialmente convidado para fazer parte do realismo visceral. Evidentemente, aceitei. Não houve cerimónia de iniciação. Antes assim.”

Roberto Bolaño, Os Detectives Selvagens (1998), Teorema, 3.ª ed., Fevereiro 2010, pp. 511

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6.2.11

In Limine: Assim tudo começa (20)


“Ernst Spengler estava sozinho no seu sótão, já com a janela aberta, preparado para se atirar quando, subitamente, o telefone tocou. Uma vez, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, treze, catorze, Ernst atendeu.”

Gonçalo M. Tavares, Jerusalém, Editorial Caminho, 9.ª edição, Dezembro 2010 (pp. 251)

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8.1.11

In Limine: Assim tudo começa (19)


“De manhã o general demorou-se muito na cave do lagar. Foi para a vinha de madrugada, com o vinhateiro, porque dois barris do seu vinho tinham começado a fermentar. Já passava das onze quando acabou o engarrafamento e voltou para casa. Debaixo das colunas do pórtico, cheio de bolor devido às pedras húmidas, esperava o guarda-caça, que entregou uma carta ao seu senhor que chegava.”

Sándor Márai, As Velas Ardem Até ao Fim (1942)

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5.1.11

In Limine: Assim tudo começa (18)


“Veio viela acima e subiu pelas escadas das traseiras, como sempre fizera. Doc já não a via há mais de um ano. Ninguém a via. Em tempos que já lá vão, andava sempre de sandálias, com a parte de baixo de um biquíni com um estampado florido e uma T-shirt desbotada dos Country Joe & Fish. Nessa noite, estava equipada da cabeça aos pés com uma indumentária suburbana e usava o cabelo muito mais curto do que a imagem que tinha dela. Tinha exactamente aquele ar que ela jurara nunca vir a ter.”

Thomas Pynchon, Vício Intrínseco (2009)

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27.12.10

In Limine: Assim tudo começa (17)


“Quando estava prestes a completar treze anos o meu irmão Jem fracturou gravemente o braço na zona do cotovelo. Quando recuperou, os seus receios de nunca mais poder voltar a jogar futebol foram postos de parte tão depressa quanto se esqueceu da sua lesão. Porém, o seu braço esquerdo ficara um tanto ou quanto mais curto que o direito; quando estava parado, de pé, ou a caminhar, a palma da sua mão ficava mesmo perpendicular ao corpo, com o polegar paralelo à coxa. Mas isso não o incomodava, desde que conseguisse fazer passes e rematar.”

Harper Lee, Por Favor, Não Matem a Cotovia, Difel, Junho 2010, pp. 398

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26.12.10

In Limine: Assim tudo começa (16)


“Não me estavam dúvidas de que algo cruel e catastrófico tinha acontecido antes de eu nascer, embora os meus pais, o comte e a comtesse, não me dissessem do que se tratava. Isso teve por consequência o meu órgão da curiosidade ficar irritável e eu tornar-me o ser mais inquieto e doentio que imaginar se possa – franzino, pálido, sempre a trepar e a meter o nariz em cada cano e mansarda do château de Barfleur.”

Peter Carey, Parrot e Olivier na América, Gradiva, 1.ª ed. Julho 2010, pp. 476

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20.11.10

In Limine: Assim tudo começa (15)


“O rapaz de cabelo alourado desceu os últimos palmos de rocha e encaminhou-se para a lagoa. Apesar de ter tirado a camisola da escola, que agora lhe pendia de uma mão, a camisa cinzenta colava-se-lhe à pele e sentia o cabelo pegajoso na testa. Em torno dele, a vasta cicatriz rasgada na selva ressumava calor. Avançava com esforço entre as trepadeiras e troncos quebrados quando uma ave, uma visão de tons vermelhos e amarelos, disparou para o céu com um clamor bruxuleante, logo depois ecoado por outro grito.”

William Golding, O Deus das Moscas (1954), Publicações D. Quixote, 2008

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17.9.10

In Limine: Assim tudo começa (14)

“O Sueco. Durante os anos da Guerra, quando eu ainda era um menino da escola, este era um nome mágico no nosso bairro de Newark, mesmo para os adultos separados há apenas uma geração do velho gueto de Prince Street e ainda não totalmente americanizados para caírem de cangalhas com as proezas de um atleta de liceu. O nome era mágico: também o era a sua cara esquisita. Dos poucos estudantes judeus loiros do nosso liceu preponderantemente judaico, nenhum outro tinha nada que se parecesse, nem de perto nem de longe, com aquela fria máscara de Viking, de maxilares bem marcados, daquele rapaz loiro e de olhos azuis nascido na nossa tribo e que se chamava Seymour Irving Levov.”

Philip Roth, Pastoral Americana, Publicações D. Quixote (1997)

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21.8.10

In Limine: Assim tudo começa (13)



“A minha mãe não me disse que eles iam lá a casa. Depois explicou-me que não queria que eu parecesse nervosa. Fiquei surpreendida, pois pensava que ela me conhecia bem. Quem não me conhecesse achar-me-ia calma. Não iria pôr-me a chorar com um bebé. Só a minha mãe se aperceberia da crispação do meu maxilar, e dos meus olhos, já grandes, a ficarem ainda maiores.”

Tracy Chevalier, Rapariga com Brinco de Pérola (1999)

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15.7.10

In Limine: Assim tudo começa (12)

“Ela estava tão profundamente implantada na minha consciência que durante o meu primeiro ano de escola eu julguei, tanto quanto me lembro, que cada uma das minhas professoras era a minha mãe disfarçada. Assim que soava o último toque eu precipitava-me para casa, perguntando a mim próprio, enquanto corria, se seria possível chegar ao nosso apartamento antes de ela conseguir transformar-se. Mas ela já estava invariavelmente na cozinha quando eu chegava, pronta a servir-me o leite e as bolachas. Em vez de pôr fim ao meu delírio, no entanto, tal proeza limitou-se a intensificar o meu respeito pelos seus poderes. Aliás, era sempre um alívio não a apanhar entre encarnações, se bem que eu nunca deixasse de tentar; sabia que o meu pai e a minha irmã ignoravam a verdadeira natureza da minha mãe, e o peso da traição que – imaginava eu – recairia sobre mim se alguma vez a apanhasse desprevenida era mais do que eu sentia capaz de suportar aos cinco anos de idade. Acho que receava mesmo ser morto se porventura avistasse, vinda a voar da escola, a entrar pela janela do quarto, ou a aparecer membro após membro, saindo de um estado invisível e preenchendo o seu avental.”

Philip Roth, O Complexo de Portnoy (1969)

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5.6.10

In Limine: Assim tudo começa (11)


“No dia 10 de Agosto de 1862, às quatro da tarde em frente do conhecido Konversationshaus de Baden-Baden, estava reunido um grande grupo de pessoas. Fazia um tempo magnífico; tudo à volta – as árvores verdes, as casas claras da confortável cidade, as colinas onduladas – tudo se estendia em festiva abundância sob os raios de um sol benévolo; tudo sorria com uma espécie de encantamento cego e confiante, e o mesmo sorriso vago mas bondoso pairava nos rostos humanos, velhos e jovens, feios e belos. Nem as próprias figuras pintadas e maquilhadas das cocottes parisienses perturbavam a impressão geral da clara satisfação e contentamento; e as variegadas fitas, pérolas, ouro e ouropel nos chapéus e véus sugeriam automaticamente à vista o brilho vívido e o leve tremular das flores primaveris e das cores do arco-íris. Só o arranhar seco e gutural das conversas em francês, que se ouviam de todos os lados, não podia transformar-se no gorjear das aves nem comparar-se com ele.”

Ivan Turguénev, Fumo

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6.5.10

In Limine: Assim tudo começa (10)

“22 de Agosto de 1972
No Sunday Times de ontem, uma reportagem de Francistown, no Botswana. Em determinado dia da semana passada, a meio da noite, um automóvel branco, de marca americana, estacionou junto a uma casa de uma área residencial. Apeou-se dele um grupo de homens encapuzados, que abriram a porta a pontapé e começaram aos tiros. Terminado o tiroteio, incendiaram a casa, meteram-se de novo no carro e foram-se embora. Os vizinhos retiraram das cinzas vários corpos carbonizados: dois homens, três mulheres e duas crianças.”

J.M. Coetzee, Verão

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